Ceará é o 6º estado em mortes associadas à depressão

A morte da mãe foi o gatilho para a dor. Doeu profundamente por dias, meses... E nem a mente, nem a alma organizavam aquele sofrimento. A dona de casa Zilar Amaro Ferreira, moradora do Bom Jardim, via os dias passarem, e o sentido das coisas se perderem. Virou a filha dos filhos, ao ter que ser ajudada em atividades básicas: comer, tomar banho, caminhar... Identificar que a depressão era causa da angústia e que ela estava doente demorou um tempo. O caso se tornou tão sério que Zilar inclusive, por duas vezes, tentou tirar a própria vida. Nessa história, felizmente, o tratamento a alcançou a tempo de reverter o triste desfecho.

No Brasil, 6.200 pessoas morreram entre 1996 e 2016 em decorrência de episódios depressivos e transtorno depressivo recorrente, conforme informações do Sistema Datasus do Ministério da Saúde.

486 mortes relacionadas à depressão foram registradas entre 1996 e 2016 no Ceará. O índice é o sexto maior dentre os estados brasileiros neste período. Segundo dados do Ministério da Saúde, apenas São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia e Rio Grande do Sul tiveram mais casos.

Embora já conhecida no rol das doenças psiquiátricas, tendo uma incidência superior, por exemplo, à esquizofrenia, conforme o psiquiatra, professor do Departamento de Medicina da Universidade Federal do Ceará e coordenador do Projeto de Apoio à Vida (Pravida), de prevenção ao suicídio, Fábio Gomes de Matos, a depressão e o tratamento ainda são negligenciados.

A falta de conhecimento, o preconceito e o despreparo, afirma o médico, acabam criando ideias distorcidas que relacionam os sintomas da doença à "frescura e fraqueza" do paciente.

"A pessoa não morre exatamente de depressão. Depressão é um fator que leva a pessoa a uma debilidade muito crônica que pode fazer com que ela venha a óbito", esclarece o presidente do Conselho Regional de Psicologia, Diego Mendonça.

Nem sempre, os registros oficiais "fecham o nexo causal" entre o óbito e a incidência da depressão, explica o psicólogo. Mas, na prática, esta associação é feita, tendo em vista a avaliação dos efeitos da depressão na vida dos pacientes.

Registros
A subnotificação das mortes associadas à depressão, explica a psicóloga e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Alessandra Silva Xavier, é um problema mundial que se repete no Brasil. Isto porque, garante ela, embora a depressão seja "tomada como mal do século" persistem as dificuldades tanto no diagnóstico como na notificação.

O cenário de preparo e preconceito, garantem os profissionais, faz com que os sintomas e as manifestações dos quadros depressivos leves, muitas vezes, não sejam investigados e isto resulte em agravo da doença para níveis moderados e graves.

A estimativa da Organização Mundial da Saúde, divulgada em 2017, é que no Brasil 5,8% da população sofre com esse problema. A maior prevalência na América Latina. Mas, felizmente, este grave mal, que afeta pessoas de diversas idades, gêneros e condição social indiscriminadamente, tem tratamento. A vida da dona de casa Zilar é a prova concreta disto.

Tratamento
Após inúmeros encaminhamentos para internação e recusas de Zilar, um psiquiatra a visitou e, segundo ela, a convidou a participar de terapias de diversos formatos no Movimento Comunitário de Saúde Mental do Bom Jardim. "Eu nem sabia o que era terapia", revela. O ingresso e permanência no tratamento a salvou.

O diagnóstico da depressão, esclarece a psicóloga Alessandra Silva, segue orientações da OMS e para ser definido, o paciente deve apresentar pelo menos cinco sintomas durante um período de duas semanas. "O surgimento dos sintomas deve significar uma mudança diante de um padrão anterior", acrescenta.

A orientação profissional deve levar em conta o processo que a pessoa passou até chegar àquele problema, justamente para perceber os efeitos da depressão que, muitas vezes, é encoberto por sintomas físicos de outras doenças.

O tratamento, de acordo com os referenciais norte-americanos seguidos no Brasil, relata Alessandra, para os graus leves é de atendimento psicoterapêutico. Em casos graves, a consulta a psiquiatras, psicólogos e a aplicação de medicação são necessários. Os recursos terapêuticos devem prezar pela história do sujeito, pois não há tratamento homogêneo.

Essa possibilidade não foi ignorada na vida de Zilar. Ela foi acompanhada, passou a fazer terapia de grupo, atendimento individual, e, com seis meses, conta, "já tava bem". Nesse processo, Zilar aprendeu a ler e escrever. Concluiu o ensino médio. Fez cursos e hoje é terapeuta holística.


THATIANY NASCIMENTO
REPORTAGEM

Fonte: Diário do Nordeste

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