Plantio de arroz no Crato se mantém apenas para consumo familiar

Pela abundância de água que corria nos rios, o Crato sempre teve o arroz como uma das principais produções. Há 10 anos, ainda que pequena em relação as outras plantações, o cultivo do cereal ocupava 500 hectares do Município, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A diminuição de chuvas e o baixo volume dos mananciais, entretanto, foi tornando extinto o cultivo.

A mandioca, que por muito tempo ficou esquecida na Chapada do Araripe, ultrapassou a plantação do grão com ocupação de 135 hectares, contra, apenas, 80 hectares do arroz.

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Agrário e Recursos Hídricos (SMDARH) estima que, em todo Crato, existam apenas 30 produtores. "Hoje, está em extinção não no só no Crato, mas em todo Cariri, a agricultura familiar de uma forma geral. O homem do campo que trabalhava em 10 tarefas, hoje trabalha em duas", afirma Zilcélio Alves, titular da SMDARH. O secretário lembra que, há 30 anos, o município era um grande produtor de arroz e a produção era altamente comercializada. Cada comunidade, inclusive, tinha suas máquinas para beneficiar o produto. "Hoje, só têm duas ou três, em todo o município. Os que cultivam, estão com dificuldade", lamenta.

Consumo familiar
No sítio Malhada, a 22 quilômetros da sede do Município, cerca de seis agricultores mantém a plantação de arroz no vale do Rio Carás. O grupo cultiva três espécies: vermelho, dourado e mitica. Como as chuvas deste ano a expectativa do grupo é ultrapassar 13 toneladas.

O agricultor José Humberto Sebastião Agostinho, de 54 anos, e seus irmãos cresceram plantando o cereal. Depois de ver sua família ir embora, foi o único que continuou. "Diz que o agricultor tem fé, mas não é fé. É obrigação. Eu mesmo não estudei, então o que a gente sabe fazer é isso aqui", enfatiza. Além do arroz, o agricultor planta feijão, milho, amendoim e fava. "Hoje ainda vendo por aqui mesmo, já que a maioria não produz", explica.

Praticamente todos os moradores da comunidade da Malhada trabalhavam com arroz e largaram pela diminuição do volume do Rio Carás. O aposentado José Monteiro foi um deles, que saiu do Crato para morar em São Paulo e tentar uma nova vida como operador de máquinas. "Quando saí daqui em 1974, o rio tinha muita água, muito peixe. Todo mundo plantava", recorda.

Antônio Joaquim Monteiro, 51, irmão de José, não abandonou a cultura mesmo com a escassez de chuvas. "O serviço meu é esse. Meu pai que ensinou pra gente. Na época, esse baixio era completo de arroz. Hoje, da Ponta da Serra pra cá, só tem plantação em três lugares", descreve. Com o elevado custo da produção, ele se mostra pessimista com o futuro. "Não tem que compre e quem quer ainda pede para vender 60 quilos por R$ 60. Futuramente vai acabar isso aqui", opina.

Incentivo
A SMDARH tem utilizado políticas públicas para tentar resgatar a produção de arroz no Município. Uma delas foi a criação do Programa de Aração de Terras dos Agricultores Familiares (Proara), que beneficiou 2 mil pessoas com a preparação da terra para a plantação, destes 33 agricultores no Sítio Malhada.

Outras políticas de incentivo que poderão contemplar os produtores de arroz a partir do ano que vem é o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Porém, a compra desta produção para a merenda nas escolas e equipamentos públicos ainda esbarra no uso de agrotóxicos de parte dos agricultores. "Se tornou uma coisa cultural o uso do veneno. Mas uma orientação nossa é acabar com a total utilização. Só podemos levar se não tiver o uso", reforça Zilcélio.

ANTONIO RODRIGUES
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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