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Festa de Santo Antônio em Barbalha: Mudanças põem em risco as manifestações culturais

A tradicional Festa de Santo Antônio, padroeiro deste Município, na região do Cariri cearense, vai muito além do Cortejo do Pau da Bandeira, que reuniu cerca de 300 mil pessoas no último dia 28 de maio. A festa do Santo casamenteiro aglutina diversos grupos culturais. Estima-se que 50 grupos folclóricos, entre maneiro-pau, incelenças, penitentes, reisados, quadrilhas e bacamarteiros, se apresentem durante os 13 dias de festejo. São cerca de 500 brincantes.

Entretanto, com quase três séculos de existência, é natural que ocorram mudanças entre esses grupos que ajudaram a tornar a Festa de Santo Antônio patrimônio imaterial brasileiro, reconhecida há dois anos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "É preciso lembrar que as mudanças são fruto das relações sociais, políticas e culturais existentes em um dado tempo e geração. Fazem parte da natureza dinâmica do patrimônio imaterial ou intangível", avalia a doutoranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Simone Pereira da Silva.

Para ela, os sentidos simbólicos, históricos, sociais e culturais da festa foram alterados: "A estruturação e execução das práticas dos integrantes transformaram-se, para enquadrá-los em uma nova lógica de atração turística e de afirmação da tradição local". Ela cita os grupos de reisados como exemplo, que tiveram o tempo de apresentação reduzido, os entremezes foram retirados, as peças alteradas e as embaixadas, que é a parte da apresentação mais dramática com espadas, foram incentivadas.

Tais mudanças, no entanto, não são vistas necessariamente de forma pejorativa. O professor doutor da Universidade Regional do Cariri (Urca), Josier Ferreira, lembra que a cultura, por ser dinâmica, é capaz de se adaptar às contemporaneidades que demarcam o presente, buscando se reinventarem como alternativa de garantirem a sua continuidade. Porém, Ferreira alerta "que é preciso articulação que promova a valorização da consciência cultural" para que a festa não se torne apenas espetáculo.

Início
Pesquisadora dos festejos de Santo Antônio, Simone explica que as (re)significações começaram por se evidenciar a partir da década de 1970, quando o então prefeito Fabriano Livônio Sampaio decidiu mobilizar duas escolas a fim de arregimentar os grupos da cultura com finalidade de transformar a celebração em um grande festejo. Conforme recorda, grupos ligados às práticas devocionais, que exerciam seu saber dentro de uma lógica sagrada e distante de um público amplo, se viram em uma situação inusitada que demandava novas formas de enquadramento.

"Tratava-se da oportunidade de divulgarem seus saberes e serem reconhecidos nesse espetáculo da festa. Então, passaram a usar uniformes aconselhados por representantes do poder municipal, delimitaram seus espaços e tempos de apresentação, alguns retiraram elementos ou objetos da encenação, outros agregaram sentidos e assim foram se evidenciando as mudanças ao longo do tempo", explica a doutoranda.

Natural
Apesar de alguns grupos mais antigos manterem suas práticas com menos alterações do que outras, estudiosos fazem a ressalva que estes já não são os mesmos de outrora, embora mantenham elementos de matrizes passadas. Simone cita os penitentes do Sítio Cabeceira, o Reisado de Couro e as bandas cabaçais ao recordar que a falta de incentivo financeiro é uma das razões das mudanças.

"A sua permanência depende, sobretudo, de um maior incentivo e valorização do poder municipal e estadual. Os grupos recebem tão pouco que mal dá para comprar os objetos inerentes à prática. No caso das danças, o cachê não é o suficiente para contratar uma banda cabaçal para acompanhá-los no momento dos ensaios. Então, como continuar com uma prática sem um maior incentivo do poder público?", indaga.

Para Josier Ferreira, de um modo geral, a festa ainda mantém vínculos que dialogam com a sua originalidade, como letras, cantos, danças, expressas em reisados, maneiro paus, bandas cabaçais, penitentes e outros. "Estas manifestações interagem na composição da festa que se mesclam ao sentimento religioso em Santo Antônio. Trata-se de saberes espontaneamente herdados pela oralidade e assimilação de ritos e que necessitam ser entendidos em conexão com o lugar, que possibilita a interatividade dos seus fatores antropológicos com as representações mentais derivadas da abstração dos seus espaços vividos que demarcam a territorialização da cultura".

Apesar de ambos considerarem essas "alterações" normais, a historiadora e coordenadora dos grupos parafolclóricos de tradição popular das escolas municipais de Barbalha, Maria Celene Sá de Queiroz, adverte que não devem existir mudanças radicais: "É admissível e, de certa maneira, aceitável que ocorram mudanças. A própria mídia, as redes sociais e a facilidade de locomoção das pessoas provoca a aculturação, porém, a manutenção dos festejos tradicionais é de relevante valor para nossa história e não pode e nem deve sofrer mudanças radicais, podendo causar com isto a própria extinção, o que seria desastroso".

O pensamento da historiadora é compartilhado pelo decurião mestre Zé Galego, do grupo de penitentes que surge no Sítio Lagoa, em Barbalha. "A mudança vai acontecer sempre. Até de um ano para outro algumas coisas podem mudar, quanto mais em décadas. Não vejo problema, contanto que a tradição, os elementos iniciais, sejam mantidos", pontua.

Preservação
Embora iniciada no século XVIII, a Festa do Pau da Bandeira da forma como é conhecida atualmente acontece desde 1928. Os festejos ao padroeiro da cidade ganharam maior visibilidade a partir do momento que os grupos da cultura, dita popular, foram inseridos na festa. A diversidade de práticas e sentidos agregou na celebração em homenagem a Santo Antônio brilho e riqueza de elementos, que a tornaram distinta de todas as outras. "Uma miscelânea de grupos de matrizes diversas que juntas formam um caleidoscópio cultural maravilhoso. Portanto, é necessário pensar medidas que visem à valorização e salvaguarda de grupos mais antigos na permanência do festejo", pontua Simone Ferreira.

O professor Josier acredita que a preservação não passa apenas pela repetição anual das apresentações, mas também pela promoção da autoestima dos brincantes e do povo a partir da sintonia com o processo de construção histórica da região, que possibilite o sentimento de pertencimento.

Cuidados
O limite entre mudança e extinção é tênue, avalia Josier Ferreira. Apesar de reconhecer que preservação não significa conservação, ele lembra que muitos grupos ficaram "anos no esquecimento" e atribui a "morte" desses grupos à falta de apoio: "A falta de políticas de sustentabilidade cultural das tradições agrárias que alimentam o universo simbólico da Festa do padroeiro de Barbalha associada ao processo de resignificação cultural da própria Festa é um dos fatores que contribui para o declínio de algumas práticas culturais, inclusive passivas de extinção".

"Existem grupos de lapinha, como o do Barro Vermelho, que há mais de 11 anos não se apresentavam. Outro exemplo, o repasse do aprendizado do tocar pífanos pela falta de incentivo cultural nas comunidades de origem, vitimadas pela pressão da modernidade cega e da cultura de massa, causou a redução do número de bandas cabaçais. Os penitentes também foram reduzidos. É preciso entender, reconhecer e valorizar o brincante, não apenas como artista associado aos festejos, mas também com humano, capaz de perpetuar a cultura", completa Josier.

Não são fenômenos sociais fechados

Como têm ocorrido as transformações desses grupos?
A permanência dessas manifestações de origens agrárias, tidas como tradicionais, é um fenômeno de resistência da cultura popular. As culturas populares não são fenômenos sociais e simbólicos estáticos, fechados, são dinâmicas, passam por transformações significativas ao longo do tempo, numa percepção também contemporânea. Não existe essa coisa de "sacrário" intocável da pureza e da originalidade, tudo muda, tudo se transforma. Muitas dessas tradições de origem agrárias, como o Reisado, são hoje manifestações urbanas e bastante antropofágicas, no sentido da compreensão de Oswald de Andrade, incorporando novas formas, novas cores, novas abordagens e significados, das mais diversas fontes e origens. É um processo bem dinâmico.

Qual importância da preservação desses grupos?
Alguns grupos guardam grande vitalidade e outros decrescem, como os Penitentes, que é um ritual religioso e que deveria ter permanecido para sempre oculto, como ritual secreto. Outros grupos atingem novo vigor e se renovam em contato com os estudantes, com as festas dos distritos, com a transmissão que está sendo dirigida aos jovens pelos grupos mais velhos. Preservar ou não esses grupos e essas seculares manifestações da cultura cearense não é apenas uma questão de vontade do Estado, é também uma dinâmica social e cultural posta em movimento pela própria sociedade. O que se preserva, sem função social e simbólica vivas, é coisa que já morreu, resquício de folclore para turista ver. É preciso que essas manifestações permaneçam viúvas dentro das suas próprias comunidades, com funções sociais, culturais, simbólicas e lúdicas bem definidas.

Nesse contexto, qual a importância da Escola de Saberes?
A Escola de Saberes de Barbalha (ESBA) parte do reconhecimento dessas manifestações culturais como expressões da cultura brasileira, compreendendo-as também como herdeiras de muitos povos e nações, um encontro de mundos. Coloca-se como um ponto de encontro de discussão, de reflexão, de estudo, de análises, de experimentações. Trabalha a oralidade e também o discurso acadêmico, a regionalidade e a universalidade, saberes empíricos e ciência.

Rosemberg Cariry
Cineasta, pesquisador, escritor e idealizador da Escola de Saberes

ANDRÉ COSTA
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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