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Crato (CE): Proximidade das chuvas destaca problemas

Os primeiros meses do ano no Cariri cearense são marcados pela quadra chuvosa, época com maior probabilidade de chuvas. De acordo com o meteorologista da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Raul Fritz, já neste mês de dezembro há a possibilidade de chuvas isoladas em algumas regiões do Sul do Estado. Se por um lado a chegada das chuvas causa alívio para muitos sertanejos castigados com os seguidos anos de estiagem, por outro, preocupa os moradores do entorno do Canal do Grangeiro, neste município.

O temor dos cratenses advém do histórico de desastres e cheias contabilizadas durante anos, somado à atual estrutura física do equipamento, que apresenta rachaduras nas paredes, lixo e entulho ao longo de sua extensão e pontes deterioradas. "Se chover um pouco mais forte, isso aqui fica tudo inundado, é um Deus nos acuda", afirma a aposentada Rosinete Brito dos Santos. Ao longo dos seus 63 anos de vida, ela conta que já viu inúmeras enchentes e, até hoje, nenhuma medida efetiva foi adotada para sanar o problema.

Quando foi construído, a largura entre as paredes não fazia supor que, no futuro, ele passaria por tantos problemas. O canal tem a capacidade de transportar 30 metros cúbicos por segundo, um volume de água considerado bom, segundo especialistas. O problema, no entanto, é que a bacia do Rio Grangeiro está cada vez mais impermeabilizada. Isto é, com uma chuva de 200 milímetros, em um intervalo de 90 minutos, por exemplo, geraria o transporte de 500 metros cúbicos por segundo no canal. O excedente de 470 metros cúbicos, desta forma, correria por fora da calha do canal, como já aconteceu em anos anteriores.

Há cinco anos, uma chuva com esse volume causou pânico e prejuízo. As águas que transbordaram do Canal invadiram comércios e casas, destruíram parte do asfalto e vários muros de residências. Segundo a Defesa Civil do Município, naquele ano, mais de três mil pessoas foram afetadas. No ano seguinte, uma chuva com pouco mais de 90 milímetros foi o suficiente para destruir parte da parede do canal, que estava em obras. Após esses incidentes, ele passou a ser chamado de "Canal do Medo".

Medidas
Apesar de não ter sido tomada até hoje nenhuma medida considerada unânime por moradores e especialistas, várias alternativas já foram apresentadas, ao longo dos anos, desde a construção de reservatórios na área superior da Chapada do Araripe, alargamento do canal e aprofundamento do leito do rio. Mas o contrário vem acontecendo. As áreas da encosta sofrem intensa e desordenada ocupação.

O gerente da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) / Crato, Alberto Medeiros de Brito, explica que as construções causam a impermeabilização do solo, perda da capacidade de absorção da água pelo solo. Ele, que é agrônomo, adverte, ainda, que a cada ano torna-se maior a probabilidade de o canal transbordar devido ao adensamento populacional.

Para o engenheiro civil Gerardo Júnior Cavalcante Lopes, uma alternativa viável para conter a problemática seria devolver o espaço natural para o rio. Conforme avalia, não existe outra ideia para ser viabilizada que afaste os riscos de grandes catástrofes na área, devendo ter o seu entorno desocupado em pelo menos cerca de 300 metros.

"A opção é simples, e pode ser realizada por etapas. As pessoas já veriam os efeitos minimizados. Isso é uma política estratégica, podendo ser este espaço transformado num grande parque, uma área verde e de lazer na cidade, fazendo do Crato um município exemplar. Além disso, beneficiando toda a população e afastando os riscos de catástrofes na área", pondera.

Ainda conforme o engenheiro, as medidas carecem de urgência, pois, segundo ele, "a cada ano, há uma possibilidade da vazão da água ser maior para uma chuva do mesmo porte, principalmente aumentando o volume que chega na área mais baixa, com uma velocidade mais intensa, fruto da ocupação das áreas de encosta e do asfaltamento das vias, como vem acontecendo de forma cada vez mais frequente no sopé da Chapada do Araripe, em Crato".

Responsabilidade
Segundo a Secretaria das Cidades do Estado (SCidades), o Canal do Grangeiro é de gerência do governo municipal, portanto compete ao Município sua manutenção. Ainda de acordo com a SCidades, em eventuais casos, o Município pode solicitar uma obra em convênio com o Estado, no entanto, atualmente, não há nenhum planejamento, por parte do Município neste sentido. Segundo a Secretaria da Infraestrutura do Estado do Ceará (Seinfra), por parte desta pasta, também não há nenhuma obra prevista para o Canal.

Plataformas
Como forma de antecipar possíveis catástrofes e minimizar seus danos, foram instalados, em 2015, equipamentos conhecidos como Plataformas de Coletas de Dados, observados periodicamente pela Central Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O equipamento é composto por um pluviômetro automático, sensor de nível do rio, câmara fotográfica, painel solar e caixa de acondicionamento para estes equipamentos.

Cada estação de monitoramento tem a função de auxiliar órgãos a antecipar possíveis tragédias naturais, ocasionadas pelo aumento do nível da água de rios, possibilitando a evacuação da população do entorno. Estes equipamentos fazem, a cada 15 minutos, a leitura de chuvas e do nível de água dos rios e demais mananciais próximos da área urbana. Além disso, a plataforma é capaz de filmar, em tempo real, toda a área observada por meio de uma câmera, o que garante maior controle dos níveis dos rios e mananciais.

Considerado importante para monitoramento de enchentes, moradores do entorno do Canal afirmam que "muitos desse equipamentos estão danificados há muito tempo".

A reportagem do Diário do Nordeste tentou contato com o Cemaden, órgão nacional responsável pela manutenção e reposição de peças, mas não obteve retorno. A reportagem também tentou contato com José Muniz de Alencar, titular da pasta de Cidades e Infraestrutura do Município, no entanto, o secretário não foi localizado.

ANDRÉ COSTA
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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