Pediatras alertam para uso de canetas emagrecedoras por crianças e adolescentes

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou uma nota de alerta sobre o uso sem indicação médica e sem acompanhamento profissional de medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, por crianças e adolescentes.

Segundo a entidade, a utilização inadequada desses medicamentos pode aumentar a frequência e a gravidade de possíveis eventos adversos. Entre os riscos estão prejuízos ao crescimento e ao desenvolvimento, desidratação, alterações eletrolíticas, perda de massa muscular, pancreatite aguda e problemas na vesícula biliar.

A preocupação também envolve o uso desses medicamentos exclusivamente por razões estéticas, especialmente entre adolescentes com peso considerado adequado.

⚠️ Uso estético pode trazer riscos à saúde mental
A SBP alerta que utilizar medicamentos para emagrecimento apenas para modificar a aparência corporal pode provocar consequências que vão além dos efeitos físicos.

“O uso com finalidade estética também pode servir de gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além de ansiedade e quadros depressivos relacionados à imagem corporal”, alertou a entidade.

A sociedade reforça que adolescentes com peso adequado não devem utilizar esses medicamentos simplesmente para modificar a aparência ou alcançar determinados padrões estéticos.

Segundo a nota, os medicamentos possuem indicações específicas, como o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Mesmo quando essas condições são diagnosticadas, entretanto, a prescrição não deve ocorrer de forma automática.

“As chamadas canetas emagrecedoras não devem ser utilizadas por adolescentes com peso adequado simplesmente para modificar a aparência corporal ou atingir padrões estéticos.”

A entidade acrescenta:

“Mesmo diante do diagnóstico dessas doenças, a prescrição não é automática.”

👨‍⚕️ Prescrição deve considerar cada paciente
Antes de decidir pela utilização do medicamento, o médico deve realizar uma avaliação individualizada da criança ou do adolescente.

De acordo com a SBP, devem ser considerados fatores como a resposta obtida com tratamentos farmacológicos e não farmacológicos anteriores, a gravidade da doença, a existência de outras condições de saúde, os riscos potenciais do medicamento, a possibilidade de acompanhamento adequado e as expectativas do paciente e da família.

A avaliação deve levar em conta todo o contexto clínico, e não apenas o peso corporal.

💊 SBP recomenda evitar o termo “caneta emagrecedora”
A sociedade também defende uma mudança na forma como esses medicamentos são apresentados ao público.

“A SBP recomenda, inclusive, substituir a expressão popular canetas emagrecedoras por medicamentos para tratar a obesidade.”

Para a entidade, a terminologia ajuda a reforçar que a obesidade é uma doença crônica e que o objetivo do tratamento deve estar relacionado à melhora da saúde e da qualidade de vida, e não somente à perda de peso.

A SBP também considera que termos associados exclusivamente ao emagrecimento podem contribuir para a banalização do tratamento.

“Expressões associadas exclusivamente ao emagrecimento podem contribuir para a banalização do tratamento e reforçar o estigma das pessoas com obesidade que necessitam de farmacoterapia.”

🤢 Náuseas, vômitos e refluxo estão entre os efeitos mais comuns
A SBP destaca que os eventos adversos mais frequentes dos agonistas do receptor GLP-1 são gastrointestinais e tendem a ocorrer principalmente durante o período de aumento gradual da dose.

Entre os sintomas estão:

  • náuseas;
  • vômitos;
  • refluxo;
  • azia;
  • diarreia;
  • constipação.

A perda de massa magra também é apontada como um possível problema.

Diante de sinais de intolerância, a recomendação é que o paciente seja acompanhado por um profissional de saúde para que a conduta possa ser reavaliada e ajustada.

🚨 Há efeitos considerados potencialmente graves
Além das reações mais frequentes, a entidade cita eventos que podem apresentar maior gravidade, como pancreatite, hipoglicemia e colelitíase, condição relacionada à formação de cálculos na vesícula biliar.

Por isso, o acompanhamento médico é considerado essencial para identificar alterações e avaliar a segurança da continuidade do tratamento.

Medicamentos podem ser eficazes quando há indicação
A SBP faz questão de diferenciar o uso inadequado da utilização médica baseada em evidências.

Segundo a entidade, as pesquisas disponíveis demonstram eficácia e segurança dos medicamentos em adolescentes quando eles são utilizados de acordo com os critérios estudados e associados a intervenções relacionadas ao estilo de vida.

“A evidência científica disponível demonstra eficácia e segurança desses medicamentos em adolescentes quando utilizados dentro dos critérios estudados e associados às intervenções sobre estilo de vida.”

Para a sociedade, o principal problema observado atualmente é a banalização desses medicamentos, sobretudo nas redes sociais.

“O problema que temos observado atualmente, principalmente nas redes sociais, não está no medicamento em si, mas na banalização.”

🚫 Produtos sem procedência também são contraindicados
A SBP também desaconselha o uso de produtos sem procedência ou sem registro sanitário.

A orientação inclui preparações clandestinas, produtos manipulados e medicamentos importados sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A preocupação é evitar que crianças e adolescentes sejam expostos a produtos cuja qualidade, segurança e eficácia não tenham sido devidamente avaliadas pelas autoridades sanitárias.

Quem não deve utilizar?
A entidade aponta ainda situações em que esses medicamentos são contraindicados.

Entre elas estão:

  • hipersensibilidade ao princípio ativo ou a qualquer componente da formulação;
  • gestação e amamentação;
  • histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide;
  • síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.

O histórico de pancreatite merece uma avaliação específica.

“O relato de pancreatite prévia é considerado uma contraindicação relativa e requer avaliação médica individualizada”, concluiu a SBP.
 
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