Remédio para pressão alta pode ajudar a queimar calorias, revela estudo

Um medicamento utilizado há décadas no tratamento da hipertensão arterial pode ter uma atuação ainda pouco conhecida sobre o metabolismo humano. Pesquisadores da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, descobriram que a losartana apresenta potencial para estimular a gordura marrom, tecido adiposo responsável por consumir calorias e transformá-las em calor.

A investigação combinou informações de prontuários médicos de mais de 100 mil pacientes com câncer e experimentos realizados com camundongos e células cultivadas em laboratório. Os resultados apontaram que a substância pode ativar a gordura marrom por uma via biológica diferente daquela responsável por sua ação no controle da pressão arterial, levantando novas possibilidades de pesquisa sobre o metabolismo e o gasto energético.

🧪 Análise de exames identificou presença de gordura marrom
Para investigar a relação entre os medicamentos e esse tecido adiposo, os cientistas reuniram exames de tomografia por emissão de pósitrons (PET) realizados no Memorial Sloan Kettering entre 2018 e 2024. Os resultados foram incorporados a uma base de dados anterior, formando um conjunto de 101.243 pacientes.

A gordura marrom foi identificada em pelo menos um exame de 8.897 pessoas, o equivalente a pouco menos de 9% dos participantes analisados.

A presença do tecido foi mais comum entre mulheres, pacientes mais jovens e pessoas que realizaram exames em dias de temperaturas mais baixas.

Os pesquisadores explicam que a gordura marrom utiliza grandes quantidades de energia para produzir calor e, por isso, absorve o marcador de açúcar utilizado nos exames PET. Essa característica permite identificar sua atividade nas imagens médicas, originalmente utilizadas para acompanhar a evolução de doenças como o câncer.

Para tornar a comparação mais precisa, cada paciente que apresentava gordura marrom foi relacionado a aproximadamente dois indivíduos sem identificação desse tecido. Foram considerados fatores como idade, sexo, índice de massa corporal e temperatura externa no dia do exame.

❤️ Presença do tecido foi associada a menores índices de doenças
Depois de organizar os grupos, a equipe comparou 511 códigos de diagnóstico, levando em consideração a presença de câncer e os tratamentos realizados pelos pacientes.

Entre os 98 diagnósticos que apresentaram diferenças entre os grupos, 92 eram menos frequentes entre as pessoas que tinham gordura marrom identificada.

As associações mais expressivas envolveram o diabetes tipo 2 e a doença cardíaca isquêmica crônica. No primeiro caso, a probabilidade de ocorrência foi inferior à metade daquela observada entre os pacientes sem o tecido. Já para a doença cardíaca isquêmica crônica, a probabilidade foi aproximadamente 50% menor.

Também foram identificadas associações com transtornos de ansiedade e depressão. As probabilidades desses diagnósticos foram cerca de 20% e 33% menores, respectivamente, entre os indivíduos com gordura marrom.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que pessoas com melhores condições metabólicas também possam apresentar menor incidência de determinados problemas psiquiátricos. Entretanto, os dados não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito.

💊 Pesquisa avaliou 125 medicamentos utilizados pelos pacientes
Em outra etapa da investigação, os cientistas analisaram 125 medicamentos utilizados pelos participantes no mês anterior à realização dos exames. Desse total, 39 apresentaram alguma associação com a presença de gordura marrom.

Entre os medicamentos relacionados a uma menor presença desse tecido estavam os betabloqueadores, utilizados no tratamento de problemas cardiovasculares, e os antidepressivos conhecidos como inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS).

Em contrapartida, dois medicamentos utilizados no controle da pressão arterial chamaram a atenção: a losartana e a valsartana, que apresentaram associação positiva com a presença de gordura marrom.

Entre os pacientes que tinham esse tecido identificado nos exames, 2,4% utilizavam losartana. No grupo sem gordura marrom identificada, o percentual de usuários era de 1,9%.

A diferença levou os pesquisadores a investigar mais detalhadamente como a substância poderia influenciar o funcionamento das células adiposas.

🧬 Cientistas identificam possível mecanismo de ativação
A losartana atua tradicionalmente bloqueando um receptor do hormônio angiotensina, mecanismo que contribui para reduzir a pressão arterial.

Nos experimentos realizados com células de gordura marrom, porém, os cientistas observaram que o medicamento continuava apresentando atividade mesmo quando o funcionamento desse receptor era reduzido.

A constatação indicou que o possível efeito sobre o tecido adiposo ocorre por uma via independente daquela responsável pela ação anti-hipertensiva da substância.

Os resultados dos testes apontaram para a participação da proteína PPAR-gama, considerada um regulador central do funcionamento das células de gordura e de processos relacionados ao metabolismo.

Os experimentos com camundongos e células cultivadas em laboratório ajudaram a reforçar essa hipótese e forneceram pistas sobre os mecanismos biológicos envolvidos na possível ativação da gordura marrom.

🔬 Descoberta ainda precisa ser confirmada em seres humanos
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que a análise dos prontuários médicos permite identificar associações, mas não comprova que a losartana tenha provocado o aumento ou a ativação da gordura marrom nos pacientes.

Da mesma forma, os resultados obtidos em experimentos com animais e células em laboratório não demonstram que o medicamento produza o mesmo efeito em seres humanos.

A investigação abre uma possibilidade de pesquisa sobre o desenvolvimento de tratamentos capazes de aumentar a atividade da gordura marrom, favorecendo o consumo de energia pelo organismo.

Atualmente, nenhum medicamento aprovado tem como finalidade específica estimular esse tecido em seres humanos.

A losartana continua sendo um medicamento indicado para o controle da pressão arterial. A pesquisa não comprova sua eficácia para emagrecimento e não recomenda sua utilização com essa finalidade. Qualquer alteração no tratamento deve ser feita exclusivamente com orientação médica.

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