O Crato está entre as três cidades cearenses escolhidas para receber o Método Wolbachia, estratégia que utiliza uma bactéria para diminuir a capacidade de transmissão de doenças pelo mosquito Aedes aegypti. A iniciativa está em fase preparatória no município, onde equipes de saúde realizam atividades em oito localidades para avançar na implementação da tecnologia.
Além do Crato, Eusébio e Maranguape também foram selecionados para participar da primeira etapa do projeto no Ceará. A proposta prevê a liberação de mosquitos portadores da bactéria Wolbachia, considerada inofensiva para os seres humanos, com o objetivo de reduzir a transmissão de arboviroses como dengue, zika e chikungunya.
No Crato, Agentes de Combate às Endemias e Agentes Comunitários de Saúde estão percorrendo diferentes áreas para orientar os moradores sobre o funcionamento da ferramenta. Conforme a Secretaria Municipal de Saúde, a pesquisa de pré-liberação está sendo desenvolvida em oito localidades, como parte dos preparativos para a implantação.
🦟 Tecnologia busca reduzir transmissão de doenças
O Método Wolbachia consiste na introdução da bactéria Wolbachia em mosquitos Aedes aegypti. Embora esse microrganismo esteja presente naturalmente em muitas espécies de mosquitos, ele não costuma ser encontrado nessa espécie, conhecida por transmitir doenças como dengue, zika e chikungunya.
Com a presença da bactéria, os mosquitos passam a apresentar menor capacidade de transmitir determinados vírus. A estratégia busca estabelecer uma população de Aedes aegypti portadora da Wolbachia, que transmite a bactéria para as gerações seguintes.
A tecnologia surgiu a partir de pesquisas realizadas em 2009 por cientistas da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Queensland, na Austrália. No Brasil, o método passou a integrar, desde 2015, as diretrizes nacionais de controle e prevenção das arboviroses, por meio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o World Mosquito Program (WMP).
De acordo com os responsáveis pela iniciativa, o método não utiliza produtos químicos e não envolve alterações genéticas nos mosquitos. A proposta é estabelecer a bactéria na população de insetos para diminuir sua capacidade de transmitir doenças.
🪣 Liberação será feita por dispositivos instalados nas cidades
A distribuição dos mosquitos ocorrerá por meio dos Dispositivos de Liberação de Ovos (DLOs), equipamentos semelhantes a pequenos baldes verdes que serão colocados em diferentes pontos dos municípios contemplados.
Segundo Gabriel Sylvestre, gerente de implantação da Wolbito no Brasil, empresa que desenvolve o método no país, uma pequena cápsula de água é inserida nos dispositivos. Aproximadamente 15 dias depois, os mosquitos emergem e começam a colonizar o ambiente.
No município de Eusébio, servidores receberam treinamento para instalar os equipamentos, e a operação logística está prevista para ocorrer de segunda a sexta-feira. A previsão apresentada pela equipe responsável é que os dispositivos sejam distribuídos pelas ruas ao longo das semanas seguintes ao anúncio.
“Nas próximas semanas, os baldinhos já vão estar todos distribuídos na cidade. Esse trabalho leva cerca de 26 semanas, ou seja, são seis meses que os Wolbitos vão estar sendo liberados aqui na cidade. Então, a gente pode falar que até março de 2027 a população de Eusébio vai estar vendo essa liberação acontecendo”, aponta Sylvestre.
🏙️ Eusébio e Maranguape também estão no projeto
No Eusébio, a etapa inicial deverá abranger nove bairros e beneficiar 32.625 moradores, correspondentes a 39,8% da população do município, segundo a prefeitura.
A escolha da cidade para receber inicialmente a tecnologia levou em consideração sua importância estratégica, a capacidade operacional para executar o projeto e o histórico relevante de transmissão de arboviroses.
Em Maranguape, a implantação será acompanhada por ações de informação e diálogo com os moradores. A prefeitura deverá divulgar o cronograma, as áreas atendidas e as iniciativas de mobilização comunitária, permitindo que a população conheça as etapas do trabalho e esclareça dúvidas sobre o método.
A seleção das cidades foi realizada pelo Ministério da Saúde. A execução conta com a participação da Fiocruz Ceará, da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) e das secretarias municipais de Saúde.
🌎 Expansão pode alcançar outras cidades do Ceará
A expectativa dos responsáveis pelo projeto é ampliar a implantação do Método Wolbachia para outros municípios brasileiros. Gabriel Sylvestre afirma que a iniciativa está sendo incorporada às políticas públicas de prevenção e controle das arboviroses.
“O Sistema Público de Saúde está implementando o Método Wolbachia como uma política pública, seguindo as diretrizes nacionais de controle de arboviroses. Então, a ideia é que quanto mais municípios a gente conseguir chegar, melhor”, afirma Sylvestre.
Jorge Costa, assessor técnico da Vice-Presidência de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, também defende a ampliação da estratégia. Segundo ele, a implementação preventiva pode contribuir para a saúde pública mesmo em localidades que não estejam enfrentando epidemias graves de dengue.
“É uma ação profilática. A gente não espera o caos, a explosão de casos de dengue para começar o método. Nós estamos trabalhando numa situação onde o número de casos hoje é pequeno, mas com a questão do El Niño, nós não sabemos qual impacto esperar em Eusébio e em todo o território nacional”, ressalta Costa.
🏭 Ceará pode receber fábrica de mosquitos
A expansão da tecnologia também levanta a possibilidade de instalação de uma fábrica de Wolbitos no Ceará. Atualmente, a produção desses mosquitos ocorre em uma unidade localizada em Curitiba, no Paraná.
Carla Celedônio, coordenadora-geral da Fiocruz Ceará, informou durante a coletiva de apresentação do projeto que existem conversas entre instituições envolvidas para ampliar a utilização do método no estado, na região Nordeste e em outras partes do país.
“A gente tem discutido tanto com a Fiocruz, com o Ministério da Saúde, com o Instituto de Biologia Molecular do Paraná e a Wolbito, essa possibilidade da ampliação da tecnologia para outros municípios do Ceará, da região Nordeste e também do país”, destacou Carla.
A coordenadora explicou que a fábrica instalada no Paraná atende atualmente à demanda do Ministério da Saúde para os primeiros municípios contemplados. Entretanto, a expansão do programa para outros estados deverá exigir aumento da capacidade de produção de ovos e mosquitos.
“A fábrica da Wolbito, que é instalada no estado do Paraná, hoje suporta toda a demanda oriunda do Ministério da Saúde para os primeiros municípios que estão sendo cobertos com a tecnologia. Mas com certeza com a ampliação, o escalonamento da tecnologia para outros estados e para todo o território nacional, a gente vai precisar ampliar a produção de ovos, de mosquitos, e consequentemente nós trabalharemos nessa perspectiva”, completou Carla.

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