Um material que atualmente é descartado durante exames de endoscopia pode ganhar um papel importante na detecção do câncer de estômago. Pesquisadores brasileiros identificaram que a quantidade de DNA presente no suco gástrico — líquido coletado no início do procedimento — pode auxiliar na identificação de tumores e oferecer pistas sobre a evolução da doença.
A proposta não substitui a biópsia, considerada o principal método diagnóstico, mas surge como uma ferramenta complementar capaz de aumentar a precisão, especialmente em casos mais complexos.
🔬 Como funciona a análise do DNA
De acordo com o cirurgião oncológico Felipe Coimbra, responsável pelo estudo no A.C.Camargo Cancer Center, o exame mede a quantidade de material genético humano presente no líquido do estômago.
Segundo ele, tecidos doentes tendem a liberar mais fragmentos de DNA, o que pode indicar alterações na mucosa gástrica.
“A análise busca identificar quanto DNA está presente no suco gástrico, funcionando como um sinal indireto de alterações no tecido”, explica o especialista.
Esse material genético pode ter diversas origens, incluindo células tumorais, células inflamatórias e componentes do sistema imunológico, o que reforça o caráter complementar do exame.
🧪 Aplicação durante a endoscopia
O diferencial da técnica está na praticidade. Durante a endoscopia digestiva alta, procedimento comum para investigação de sintomas, o líquido gástrico já é aspirado para facilitar a visualização.
Atualmente, esse material é descartado. A nova proposta é utilizá-lo para análise, sem necessidade de exames adicionais.
📌 Isso significa:
- Nenhum procedimento extra para o paciente
- Sem aumento significativo de tempo ou risco
- Aproveitamento de material já coletado
⚠️ Quando o método pode fazer diferença
A técnica pode ser especialmente útil em situações em que a biópsia apresenta limitações.
Como o exame tradicional analisa apenas pequenos fragmentos do tecido, há casos em que o material coletado não representa toda a lesão, principalmente quando o tumor está em áreas profundas ou distribuído de forma irregular.
“O teste pode ajudar quando a biópsia não é conclusiva ou quando há divergência entre o resultado e a suspeita clínica”, destaca Coimbra.
Ao reunir fragmentos de diferentes áreas do estômago, o suco gástrico funciona como uma “amostra ampliada”, aumentando as chances de detectar alterações relevantes.
📊 Método é complementar, não substituto
Apesar do potencial, os pesquisadores alertam que o exame não deve ser usado isoladamente.
Isso porque níveis elevados de DNA também podem ser causados por inflamações, gastrite ou outras condições benignas, o que pode gerar resultados falsos positivos.
Assim, a análise deve sempre ser interpretada junto a outros exames clínicos e laboratoriais.
🔍 Descoberta sobre prognóstico chama atenção
O estudo também revelou um dado inesperado: pacientes com maior quantidade de DNA no suco gástrico, em alguns casos, apresentaram melhor evolução da doença.
A hipótese é que isso esteja relacionado a uma resposta mais ativa do sistema imunológico.
“Níveis mais altos podem indicar uma reação mais intensa do organismo contra o tumor”, afirma o especialista.
📈 O que ainda precisa avançar
Apesar dos resultados promissores, a técnica ainda está em fase inicial e precisa de validação em estudos maiores.
Entre os desafios apontados estão:
- Necessidade de testes em diferentes populações
- Falta de acompanhamento a longo prazo
- Dificuldade em identificar a origem exata do DNA analisado
🔮 Perspectivas para o futuro
Se confirmada, a técnica pode transformar a endoscopia em um exame ainda mais completo, incorporando análise molecular sem alterar a rotina do procedimento.
A expectativa é que o método ajude principalmente em diagnósticos difíceis, reduzindo a chance de que tumores passem despercebidos.
No futuro, a análise também poderá contribuir para avaliar o prognóstico da doença e orientar tratamentos, mas, por enquanto, seu principal papel é ampliar a precisão do diagnóstico.
Por Fernando Átila

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