Patrimônio arqueológico fará parte do Geopark Araripe

O povoamento do Cariri envolve resistência, lutas, suor, mortes e muitas lendas. Uma delas é que a Chapada do Araripe é um mar subterrâneo represado pela Pedra da Batateira, que seria a cama da Mãe D'água. Pelo imaginário popular, se um dia a pedra rolar, todo vale seria inundado. Também conta-se que uma princesa transformada em serpente gigante era vista com frequência na "Lagoa Encantada". Resquícios dessas histórias e da chegada do homem na região podem estar presentes no sítio arqueológico de Santa Fé que, em breve, se tornará um geossítio do GeoPark Araripe e, após isso, estruturado para visitação e pesquisa. 

No último mês, a diretoria do GeoPark Araripe se reuniu com representantes da Fundação Casa Grande para discutir o gerenciamento da proposta do Geossítio de Santa Fé, que fica a cerca de 20 quilômetros da sede do município do Crato e está a 800 metros de altitude. Seu principal atrativo são as inscrições rupestres deixadas pelos antigos habitantes que viveram na Região do Cariri cearense, ao sul do Estado do Ceará. A área, de 8,3 hectares, possivelmente, fará parte do território da Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura (Unesco).

A  caracterização arqueológica está sendo feita pela Fundação Casa Grande, que há três décadas pesquisa no local. Já o mapeamento geológico ficará por conta da equipe de Geoconservação do GeoPark Araripe. A expectativa é que todo levantamento seja concluído até junho para ser apresentado no dia 10 de setembro deste ano, na Conferência Global de Geoparques, na Itália, junto com a candidatura de mais dois geossítios: Levadas de Água e Caldeirão da Santa Cruz. Todos no município de Crato.

O objetivo é que, a partir da inclusão, possam atrair turistas, curiosos e estudiosos. Hoje, o processo mais avançado é o Sítio de Santa Fé, no distrito homônimo. O levantamento topográfico está sendo feito para definir a área, os locais de trilhas, ponto de destaque, além do inventário geológico. O terreno é privado, mas seu proprietário, o empresário Demétrio Jereissati, é parceiro da Fundação Casa Grande e do GeoPark Araripe. "Com as devidas justificativas, informações sobre entorno, de acesso ao local, fica pronto para fazer o encaminhamento para o parecer", explica o diretor executivo do GeoPark Araripe, Nivaldo Soares.

Depois de aprovado, a expectativa é que, a partir de um projeto junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), comece a fazer os investimentos para melhorar o acesso, sinalização e divulgação de Santa Fé. Algumas atividades com as comunidades do entorno devem ser realizadas para instruir os moradores a fazer uso do espaço com geração de emprego e renda a partir da recepção de visitantes e artesanato. Outras possibilidades podem ser o turismo sustentável e rapel.

"Pela técnica, altitude e tipo de gravismo, Santa Fé é um sítio que se mostra muito mais antigo, eles avançaram lá primeiro. A vertente norte, a qual está incluído, é o trecho mais avançado para o vale do Cariri. A gente acredita que o Santa Fé é mais antigo", pontua a arqueóloga Heloísa Bitú, que também pesquisa sobre o local.

A arqueóloga Rosiane Limaverde, que faleceu em março de 2017, aos 51 anos, se dedicou a estudar as rotas migratórias deste "Homem Kariri", onde foi a sua penetração na região e seu modo de vida. Ela acreditava que aquele local tratava-se de um santuário pré-colonial e foi utilizado para uma série de funções ritualísticas com elementos não encontrados em nenhum outro sítio. Santa Fé se tornou um ponto de referência para entender a ocupação humana no Cariri.

Na superfície pétrea foi talhado um ícone muito forte, que se repete, com elementos que levam a crer tratar-se de representações de aves, segundo as pesquisas de Rosiane. Ele foi escolhido como símbolo do Memorial Homem Kariri e muito se assemelha ao tuiuiú ou jaburu. Dá pra imaginar que o Cariri era uma terra com água em maior abundância, já que esta espécie vive em locais mais úmidos, como o Pantanal.

Mas o que mais chamou atenção foi a presença de uma linha sinuosa que as pessoas da comunidade associam a uma serpente. É ela que pode estar ligada ao mito dos índios da "Mãe D'água", que vive na lagoa encantada em cima da Chapada do Araripe. Santa Fé é o único sítio arqueológico que possui essa representação. "São alguns fragmentos que ainda continuam nas comunidades e podem fazer relação com essa ocupação", pontua Heloísa.

Heloísa Bitú identificou outra serpente após análise da imagem fotográfica em laboratório. O contraste da imagem reforçava a figura. "Essa pode afirmar que se tratava de uma serpente porque tinha a cabeça definida e uma boca semiaberta. Nada é por acaso", garante a arqueóloga.

Preservação
Em 1991, o bancário Sérgio Limaverde adquiriu a área que compreende o Sítio Arqueológico de Santa Fé. No entanto, ele não conhecia nada das gravuras até Alemberg e Rosiane visitarem o local para os estudos. Hoje, aposentado, Sérgio lembra que foi graças ao casal que ele manteve a conservação. "Nunca desmatei porque pediram para não tirar a originalidade que era a mata e ter cuidado com invasão", lembra.

Como ainda não morava no Crato, ele chegava a flagrar dois a três carros subindo e invadindo o local sem permissão. Foi aí que tomou a atitude de colocar um portão e cadeado na entrada da estrada. "Eu dizia que ali só mexiam se fosse com o Alemberg e Rosiane. Antes, eu não tinha conhecimento, mas após saber do valor, ajudei a mantê-lo", destaca.

Hoje, a principal ameaça do para Santa Fé é o tempo. Ele sofre com os processos naturais das de desgaste das rochas e os registros estão ameaçados de desaparecimento. Segundo Heloísa Bitú, a ocupação do painel é antiga e aconteceu em períodos distintos. Boa parte já se destacou da rocha e teve uma perda de quase 40%. "Todo o processo não acontece da noite para o dia. É um processo natural que leva bastante tempo para acontecer. A gente consegue perceber que tem gravuras incompletas. O painel era muito maior e tinha muitas gravuras", conta a arqueóloga.

A deterioração está ligada à umidade presente e mantida na formação geológica do sítio. A água das chuvas é absorvida, penetra nas rochas e o sítio fica, exatamente, entre essa parte de absorção e acúmulo de água da Chapada do Araripe. Isso provoca a aceleração dos processos de oxidação e degradação da rocha. "Não podemos intervir de forma mais incisiva por haverem uma série de leis que protegem a manutenção da originalidade do patrimônio. Como é um processo natural e impossível de exinguir, nos resta desacelerar o processo. Fazer com que leve mais tempo para desaparecem", completa.

Com a criação do geossítio, o GeoPark Araripe planeja atuar na diminuição de umidade e fazer escoamento da água para que não caia diretamente nas gravuras. Além disso, será feito um projeto, junto com a Fundação Casa Grande, para gerir o espaço. "A partir de uma análise ecológica, identificamos outros problemas que são a invasão das raízes, o desmatamento da vegetação nativa, filetes de água que deterioram a área pintada, a atividade de cupins, roedores e insetos. Tudo isso foi analisado, diagnosticado", conclui Heloísa.

Para o diretor da Fundação Casa Grande, Alemberg Quindins, com a criação do geossítio Santa Fé haverá mais condição técnica de preservação à sua disposição ao reconhecê-lo como um patrimônio natural, material e imaterial. "O intuito desta mobilização e parceria entre empresas privadas, instituições acadêmicas, instituições de pesquisas e organizações não governamentais, é inédito e exemplar no Cariri e no Estado", exalta.

Conheça os já existentes
Nove geossítios compõem o GeoPark Araripe, em seis municípios do Cariri cearense: Colina do Horto, em Juazeiro do Norte; Cachoeira de Missão Velha e Floresta Petrificada, em Missão Velha; Batateira, em Crato; Riacho do Meio, em Barbalha; Ponte de Pedra, em Nova Olinda; e Pedra Cariri, Parque dos Pterossauros e Pontal de Santa Cruz, em Santana do Cariri.

ANTONIO RODRIGUES
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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