Raul Seixas criticou música brasileira em entrevista um ano antes da morte

Nesta quinta-feira (21), a morte do pai do rock completa 25 anos. Para homenagear Raul Seixas, o Portal EBC traz uma entrevista inédita que ele concedeu ao jornalista André Barbosa no ano de 1988.

Na entrevista, ele fala sobre os dias em que ficou preso pela ditadura no ano de 1974, sobre os rumos do rock, da música, da cultura e da política no Brasil. Raul também fala sobre a saúde, que já começava a comprometer na época, e do disco Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum, que havia sido lançado na época.

Raul mostrava descontentamento com o momento do Brasil. “O Brasil está passando por uma fase dificílima. É um absurdo, tá muito fraco em matéria de pulso e infraestrutura”, dizia. O cantor também criticava a música nacional e fazia críticas ao Ultraje a Rigor, grupo que fazia sucesso na época. “A falta de cultura na juventude é refletida na música brasileira. É inútil, é nu com a mão no bolso. A juventude está mal-informada mesmo. Deve ser uma grande conquista de quem queria isso”, disse.

Na entrevista, ele descreveu os planos que teve de criar uma sociedade alternativa em Minas Gerais e como os planos acabaram após ter sido preso, torturado e exilado no ano de 1974. Ele lembra também que voltou ao Brasil só porque o disco Gita fez sucesso. Confira os principais tópicos da entrevista:

Torturado na ditadura
Raul relatou, entre outras coisas, que ficou em um local subterrâneo, com limo, que apanhou e levou choques “em lugares particulares”. Do local da prisão, ele também conta que foi levado a um aeroporto e mandado para os Estados Unidos.

Só voltou ao Brasil porque o LP Gita se tornou um sucesso: “Veio o Consulado Brasileiro no meu apartamento. Era quase em dezembro de 1974. Bateu na porta do meu apartamento dizendo que eu já podia voltar. Que o Brasil já me chamava, que eu era patrimônio nacional e que tava vendendo disco”. Raul disse que voltou só porque “estava com muita saudade”.

Críticas ao rock brasileiro
Com bandas como Ultraje a Rigor, RPM e Titãs fazendo sucesso, Raul Seixas se mostrou um profundo crítico à cena musical brasileira da época. “O rock & roll no Brasil era baseado nas versões internacionais. Hoje é bem mais ingênuo, mais pobre de harmonia em relação ao tropicalismo. Inútil, nu com a mão no bolso. Há uma falta de cultura musical. A juventude está mal informada mesmo. Deve ser uma grande conquista de quem queria isso”, disse.

Relembrando a história do rock
Para Raul Seixas, o rock havia morrido em 1959. “Não falo só de música, mas falo também em outros setores culturais onde se modificam o setor metafísico e comportamental do movimento. Depois virou aquela coisa comercial como o Twist”, disse.

Raul disse que uma das salvações do movimento foi o “hipismo”: “Todo o movimento do Peace and Love acabou com o movimento de violência. Porém, entrou a droga no meio como porta-estandarte da juventude. Eu vejo em que havia uma preocupação com o Planeta Terra nos 50 e 60. Coisa que não podemos ver hoje em dia. Vivemos no caos. A arte é um espelho dessa sociedade”.

Novo disco
Raul havia rompido com a Som Livre e estava em uma gravadora menor. Na entrevista, ele falou das vantagens disso: “Estou com um espaço muito livre na gravadora. O Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum é o disco que estou lançado agora. A Copacabana é um lugar em que tenho espaço grande e consigo falar com meu chefe”.

Sobre o disco, ele dizia que teve uma proposta de Neil Diamond e pensava e seguir carreira internacional: “Cheguei a ter uma proposta de parceria com o Neil Diamond. Bati o pé, mas acho que vou ceder. Você grava no Planeta Terra, você fala com a raça humana. Você alcança o mundo todo. É minha vontade, talvez deixe o rapaz gravar. No Brasil, muitas poucas pessoas para comprar discos”.

Saúde
Raul também falou sobre os boatos de que a sua saúde não estava boa: “Muita coisa de jornal, de noticiazinha, de notinha. Já me assassinaram um monte de vezes. Tive problemas de diabetes. Ela descompensa. Fui internado numa clínica, Santo Amaro. Disseram que tô morrendo. E tô aqui”.

Barbosa aponta que a aparência de Raul não estava boa na época: “Ele estava com a pele de cor amarela. Ficamos duas horas conversando depois fomos comer algo. Ele estava tentando não beber e não fumar. Depois soube que não conseguiu”. Raul Seixas morreu no dia 21 de agosto de 1989, vítima de complicações de uma pancreatite aguda.

Fonte: Agência Brasil



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