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Bolsonaro atingiu o máximo das intenções de voto que seu discurso permite – e não tem mais como crescer

A pré-candidatura à presidência do deputado federal Jair Bolsonaro parece ter atingido um teto de cerca de 20% nas intenções de voto nas eleições de 2018, segundo a análise de cientistas políticos.

Esse é o ponto máximo a que Bolsonaro chega, de acordo com a última pesquisa Datafolha, mesmo nos cenários em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aparece.

A diferença é pouca em relação aos 16% a 18% que Bolsonaro tem quando disputa com o candidato do PT.

Essa variação tímida indica que, sem seu rival declarado, Bolsonaro tem pouco potencial de angariar mais votos com base apenas no próprio carisma – e que, talvez, o apoio ao deputado tenha atingido um teto.

Para Adriano Oliveira, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a situação vai além disso: “Bolsonaro é uma bolha eleitoral”, afirma.

“A candidatura de Bolsonaro é construída em torno do antipetismo. Assim que o discurso ‘anti-PT’ dos outros candidatos também chegar à população, o apoio a ele vai declinar”, diz Oliveira.

Mais do que o anti-petismo, Bolsonaro ainda encarna o ideal de “anti-político”, de acordo com Hilton Cesário Fernandes, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Fernandes acredita, assim como Oliveira, que é necessário esperar uma consolidação das outras candidaturas, que hoje ainda estão no campo da especulação, para prever o impacto mais abrangente que elas terão sobre o apoio a Bolsonaro – mas que há boas chances de candidatos centristas desidratarem a candidatura do deputado, se souberem se apropriar de seu discurso de moralização e renovação da política.

Até porque, se por um lado o ponto de vista radical de Bolsonaro encontra eco entre parte dos eleitores, em um contexto de péssima avaliação do governo atual e descrença com a política tradicional, por outro lado as eleições majoritárias quase sempre resultam em uma vitória do centro, pontua Rafael Cortez, da Tendências Consultoria.

“O eleitor ainda não está ativamente pensando em quem votar, está reagindo a nomes que são oferecidos. O cenário todo vai ser importante, é preciso esperar esse cenário se montar. Uma fragmentação muito grande do centro poderia levar Bolsonaro ao segundo turno”, opina.

Encruzilhada
Além de tudo, Bolsonaro tem pela frente um desafio narrativo: se por um lado seu discurso radical cria uma base de eleitores muito fiel, por outro espanta qualquer possibilidade de torná-lo um candidato majoritário.

Para Hilton Cesário Fernandes, professor da FESPSP, ele tem poucas chances de crescer mais nas pesquisas.

“Não é por falta de visibilidade, não é por falta de conhecimento das propostas, é pela forma como ele se apresenta; dificilmente ele vai ter mais apelo do que agora”, opina.

Para Fernandes, existem três “tipos” de eleitores de Bolsonaro: um que busca a ordem na política, que acha que é preciso moralizar “tudo o que está aí”, e esse eleitor provavelmente vai mudar de candidato quando aparecer outro político que abrace essa causa, mas com um discurso mais moderado.

O segundo tipo de eleitor do Bolsonaro é o religioso conservador, que pode votar no candidato porque ele representa os valores tradicionais da família, pela ideia de moralidade. Esse eleitor também pode debandar quando outro candidato  — como Marina Silva (Rede), por exemplo — assumir esse papel.

Por fim, existe o eleitor linha-dura de Bolsonaro: são os apoiadores mais fervorosos, que não aceitam debates e devem ficar ao lado do candidato até o fim.

Essa é a verdadeira base do deputado, e ela funciona muito bem nas eleições proporcionais (como as do Legislativo), nas quais são necessários muitos votos, mas não a maioria.

“Para uma eleição presidencial, que é majoritária, não funciona. E, se ele suavizar o discurso, vai perder essa base já formada”, explica Fernandes.

Adriano Oliveira, da UFPE, concorda com Fernandes: “ele não tem condição de mudar o discurso sem risco de perder capital eleitoral; para mim, é um movimento arriscado”.

Um novo Donald Trump?
Para Fernandes, da FESPSP, a possibilidade de Bolsonaro ser um Donald Trump à brasileira é remota devido a um fator decisivo: Trump encarnava o “anti-estabilishment” contando com todo o apoio, infraestrutura e financiamento do partido Republicano.

Aqui, Bolsonaro deve sair candidato pelo Patriota, ex-PSL, um partido minúsculo com apenas três deputados na Câmara, pouco financiamento público e ainda menos tempo de televisão.

“Se ele não fechar apoios, se não fizer alianças partidárias com siglas que tenham inserção política nas cidades para acompanhar os comícios, ele não vai ter chance de chegar ao segundo turno”, diz Fernandes.

Segundo o professor, pode acontecer com Bolsonaro o mesmo que já aconteceu com vários candidatos ao longo da corrida eleitoral: começar bem posicionado nas pesquisas, devido à boa visibilidade, mas depois murchar e, no fim da linha, não chegar sequer ao segundo turno.

Ele cita como exemplo o caso de Celso Russomanno, que em dois pleitos seguidos apareceu liderando as pesquisas de intenção de votos para a prefeitura de São Paulo, mas perdeu espaço ao longo dos meses para outros candidatos.

Segundo o professor da FESPSP, Bolsonaro teve sorte até agora de estar no ringue com poucos adversários. “Existem muitos candidatos em potencial, mas poucos pré-candidatos de fato”.

Fonte: Exame.com

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