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Memória do reisado: Folia de reis atrai as crianças a participarem da manifestação no Cariri

Messim, como gosta de ser chamado Cícero Flaviermerson Azarias da Silva, de 7 anos, ainda estava um pouco ofegante quando começou a cantar "esse Reisado quando sai à rua, noite de lua, só parece um beija-flor/ eu tenho valor, eu tenho memória, meu peito chora, meu coração sente dor". A apresentação de seu grupo, o Reisado Mirim Santo Expedito, na Praça José Geraldo da Cruz, em Juazeiro, tinha acabado há pouco quando sua irmã mais velha, a mestra Cícera Flatenara Azarias da Silva, 20, o convidou a responder algumas perguntas da moça.

Qual sua música preferida? Tomou fôlego e entoou: "Eu fui um batizado, eu fui um batizado, lá no rio de Jordão, lá no rio de Jordão/ São João batizou Cristo, São João batizou Cristo/ e Cristo batizou São João/ e Cristo batizou São João". Messim brinca reisado desde um ano de idade - isso foi ele mesmo quem contou. Em casa, ele acompanha as atividades do pai, Cícero Frank, com o Reisado Manoel Messias, e da irmã mais velha, que começou com o grupo mirim há uns oito anos.

"O meu reisado foi fundado quando eu ainda brincava de rainha com meu pai. A gente foi e decidiu montar um reisado mais com meninas, mas que não fosse só pra mulher, fosse mirim, homem e mulher, mas a prioridade é que sejam crianças", conta Flatenara. Segundo ela, não há muita diferença, mas os pequenos dão bem menos trabalho. "Eles gostam daquela folia, da zoada, e aprendem mais rápido. Se você trabalhar com adulto, quebra mais a cabeça", confessa ela, que brinca desde os dois anos de idade.

Nos ensaios do grupo infantil, que sempre tem dois ou três novatos, "eles dançam, eles cantam, tem interesse por tudo, mas o foco é as espadas!", revela a jovem mestra. "O meu foco também foi esse, até hoje ainda é...", lembra. Ela aprendeu tudo do reisado com o pai. Quando ele não podia ensinar, ficava apenas observando. E isso foi suficiente para que ela demonstre sua força e esperteza em qualquer batalha.

Encenações
Além das espadas, Messim também tem um apreço pelos "bichos". "Os bichos que ele diz são os entremeios que a gente coloca: a gente tem boi, jaraguá, que a gente chama no meio das apresentações", explica Flatenara. Os entremeios são apresentados como pequenas encenações dramáticas, intercaladas com a execução de peças, embaixadas e batalhas. Os personagens são tipos humanos ou animais e seres fantásticos humanizados.

"Chegou chegou/Já chegou meu Jaraguá/O bichinho é bonitinho/Ele sabe vadiar" é uma das peças famosas, cantadas para o pássaro do reisado brasileiro. "A gente ensina. Sempre falo: a gente canta primeiro, vocês escutam, aí depois vocês repetem. Assim eles aprendem. A gente canta uma, duas, três vezes pra eles memorizarem", conta. "Demora muito não pra eles aprenderem, os que têm interesse, demora não", enfatiza.

Mestra Lúcia, do Reisado Mirim Estrela Guia, e Mestre Dodô, do Reisado São Francisco compartilham da opinião de Flatenara sobre o empenho dos pequenos. "A gente ensaia canto, dança, jogo de espada - é muito bom que elas aprendam, que é pro coral sair direito", comenta Mestra Lúcia. "A criança tem facilidade de aprender tudo que quiser, basta querer", complementa Mestre Dodô. Até mesmo na hora de confeccionar as roupas, os pequenos dão uma mãozinha. "Diga a ela Messim, que você ajuda a cortar, a colar os espelhos", orienta a mestra do Reisado Mirim Santo Expedito.

Transmissão
Com um bebê de seis meses, Flatenara já tem uma certeza: "minha intenção é que ele siga a trajetória minha, do meu pai, do meu avô". Quando gestante, ela chegou a brincar até oito meses. "Tirei quilombo na rua nos três dias. Saía de manhã e voltava seis da noite. Tirar quilombo é a comemorativa do nascimento de cristo, que tem no mês de dezembro. Começa dia 25 e vai até dia 6 de janeiro. A gente brinca natal, ano novo e dia de reis", contextualiza.

Três dias antes de Gustavo, seu filho, vir ao mundo, ela ainda estava na rua. "Achei que quando eu fosse ter filho eu ia parar, mas agora que eu brinco!", comemora. A criança, no entanto, não estava na Praça José Geraldo da Cruz, na ocasião da brincadeira realizada durante a 19ª Mostra Sesc Cariri. "Eu não trouxe ele porque a gente brincou sábado e domingo, aí fica puxado. Mas ele já é a quarta geração no reisado", fala confiante. No que depender do gosto da família pela tradição, ainda virão muitas outras. E o melhor, eles não são os únicos.

Saiba mais
Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do folclore brasileiro, diz que Reisado é a denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e Dia de Reis.

O Reisado é formado por um grupo de músicos, cantores e dançarinos que percorrem as ruas das cidades e até propriedades rurais, de porta em porta, anunciando a chegada do Messias, pedindo prendas e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam;

O Mestre é o solista, sendo respondido pelo coro a duas vozes. Os instrumentos utilizados alternadamente são: a sanfona, o tambor, a zabumba, a viola, a rabeca ou violão, o ganzá, pandeiros, pífanos e os "maracás", chocalhos feitos de lata, enfeitados com fitas coloridas;

Os passos na dança do Reisado incluem o gingá, onde os figurantes de cócoras se balançam e gingam; a maquila, um pulo pequeno com as pernas cruzadas e balanços alternados do corpo para os lados, entre outros;

A manifestação tem como personagens principais o Mestre, o Rei e a Rainha, o Contramestre, os Mateus, a Catirina, figuras e moleques.

*Fonte: Lúcia Gaspar (Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco, Recife/PE)

ROBERTA SOUZA
ENVIADA ESPECIAL

Fonte: Diário do Nordeste

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