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Do diretor Rosemberg Cariry, ‘Os Pobres Diabos’ expõe o Nordeste dos desvalidos

Será uma história de circo? Não – da humanidade. Rosemberg Cariry começa Os Pobres Diabos com a chegada do circo. Avançam pelo sertão, chegam ao meio do que parece nada. Acampam, montam a lona. Dono do circo, Everaldo Pontes reúne a trupe à mesa. A Santa Ceia – “Hoje temos (alimento), amanhã não sabemos.” A questão do alimento é essencial em Os Pobres Diabos. Chico Diaz divide o ovo de sua galinha. Gero Camilo alimenta a mulher (Sílvia Buarque) e a filha dela com o leite das cabra. E Zezita Matos, irmã de Everaldo, prepara suas tapiocas. 

Se o alimento para o corpo é escasso, tem o da alma. Os artistas encenam a invasão do inferno pelo mais inclemente dos cabras da peste. Ele escraviza o próprio Diabo. O público diverte-se. Crianças caçam gatos que vendem a Zezita em troca de ingresso, e ela prepara espetinhos. Horror, horror. É a vida. É o desejo. Chico deseja Sílvia, mas Gero está sempre de olho. Everaldo deseja... Tarzan, o homem forte da trupe. O homem da luz, que fornece energia ao circo, tem essa mulher crente, e ela também sente a tentação da carne.

Todos pobres diabos. Há tempos que o cinema brasileiro não apresenta um filme como esse. Rosemberg Cariry tem tradição, é nome importante do cinema no Ceará, autor de uma obra que começou há mais de 30 anos. Pesquisador da cultura nordestina, e do cangaço, fez Corisco e Dadá, com Chico Diaz e Dira Paes, em 1996. Seu conhecimento da cultura popular transparece no auto encenado dentro do circo. Seu compromisso com a raiz traduz-se num visual que capta o agreste em cores. Glauber, lá atrás – 1968 –, as cores de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Mais recentemente – 2005 –, Marcelo Gomes e Cinema, Aspirinas e Urubus.

Belamente fotografado pelo filho do diretor, o também cineasta Petrus Cariry, Os Pobres Diabos também possui uma elaborada pesquisa musical. O elenco é de feras, e Sílvia Buarque nunca foi mais bela nem sensual. O circo fornece o cenário. O tema é a (pobre) humanidade. Ao mesmo tempo que encena o auto do inferno, o circo promete o show final com o leão. Ouve-se o seu rugido assustador. Há uma surpresa, um segredo (meio Mágico de Oz). Há outro filme brasileiro sobre saltimbancos – Deserto, de Guilherme Weber. Outra trupe. O de Cariry é melhor, mas ambos revelam esse olhar compassivo para o desamparado Brasil profundo.

Por: Luiz Carlos Merten

Fonte: Estadão

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