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ACM, PC Farias, bolinha de papel... Perito contratado por Temer coleciona vexames e desafetos

Quando o nome de Ricardo Molina foi anunciado como perito particular contratado pelo presidente Michel Temer (PMDB) para analisar o áudio gravado pelo empresário Joesley Batista, dono da JBS, os olhos e ouvidos de pessoas acima dos 30 anos devem ter notado que se tratava de um velho conhecido. Alçado à fama nacional em 1996, o campineiro de 60 anos acumulou ao longo da vasta carreira trabalhos em casos famosos na política brasileira. Mas sua atuação também deixou rastros de desafetos.

Molina se define como alguém que é "tudo ao mesmo tempo". Formado em Composição e Regência pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), com mestrado em Linguística, na área de fonética, e doutorado em Ciências, na área de fonética forense -- sempre pela mesma instituição-, ele não tem formação específica em perícia criminal ou judicial. Apesar disso, classifica-se como perito e ressalta que atua nessa profissão "há mais de 20 anos".

"Tenho uma trajetória eclética. São as quatro áreas do conhecimento: exatas, humanas, artes e biológicas. Eu passei pelas quatro. Isso é muito bom quando você vai fazer perícia, porque você tem que ser eclético", defende.

Marcos de Almeida Camargo, presidente da APCF (Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais), pensa diferente. "Para mim, é bem prático: ele faz um trabalho que, embora seja chamado de perito pela população, é um trabalho de assistência técnica, que é diferente da perícia oficial", pontua.

Camargo ressalta que o trabalho de assistente técnico está previsto no Código de Processo Penal. Mas, para ele, "diferentemente da perícia oficial, [o assistente técnico] está atendendo o interesse de uma parte" –por isso, ele teria uma "dependência com quem está pagando".

Para um outro perito criminal ouvido pela reportagem do UOL, a atuação de Molina "não deixa de ser midiática". Ele menciona as afirmações feitas recentemente por Molina em uma coletiva de imprensa, de que o áudio da conversa entre Temer e o empresário Joesley Batista está "contaminado por inúmeras descontinuidades", o que, para Molina, seria suficiente para "jogar a gravação no lixo".

"Óbvio que é uma afirmação que tem o objetivo de polemizar. Para mim, perito nenhum pode dizer que tendo descontinuidades a gravação é imprestável", afirma o perito criminal.

Frente à desaprovação de outros peritos pelos seus métodos e pela sua habilitação a fazer essas análises, Molina diz ser "um cara meio imune a críticas".

Para ele, a APCF "não gosta que ninguém critique o trabalho deles". "Eles confundem oficialidade com competência e neutralidade, que para mim são conceitos um pouco diferentes. Você pode ser perito oficial e ainda assim errar", pontua, dizendo que não está "nem um pouco preocupado com o que a Polícia Federal acha de mim".

Casos famosos
Ricardo Molina era professor da Unicamp, mas foi demitido pela instituição em 2001 acusado de irregularidades administrativas --o que ele nega. Na instituição, trabalhou ainda no DML (Departamento de Medicina Legal), do qual chegou a ser chefe. Hoje extinto, o DML foi um laboratório pioneiro nas áreas de fonética forense e processamento de imagens no país e foi responsável por análises de repercussão nacional, como os massacres de Eldorado dos Carajás e da penitenciária do Carandiru.

Ao longo das últimas três décadas, Molina se envolveu em casos de repercussão nacional. Sua fama começou em 1996, com as investigações sobre a morte de Paulo Cesar Farias, o PC Farias, empresário e tesoureiro da campanha eleitoral do ex-presidente Fernando Collor.

O laudo da polícia alagoana apontou homicídio seguido de suicídio, ambos cometidos por Suzana Marcolino, namorada do tesoureiro. Molina, porém, uniu-se a outros peritos e contestou a versão oficial. Para ele, a trajetória da bala não corresponderia a um suicídio, e o disparo teria sido feito por uma terceira pessoa presente na cena do crime.

O julgamento do caso se estendeu até 2013, quando o juiz Maurício Brêda, da 8ª Vara Criminal de Maceió, reconheceu a tese de duplo homicídio. Ele não identificou, no entanto, quem foram os autores do crime.

Era só o início do envolvimento de Molina com trabalhos relacionados a políticos. Em 2001, ele atuou como perito em outro escândalo: a violação do painel eletrônico do Senado pelo então senador Antônio Carlos Magalhães (DEM).

Na época, Molina confirmou a autenticidade da gravação de uma conversa entre ACM e o procurador da República Luiz Francisco de Souza, em que o parlamentar insinuava ter tido acesso às informações sigilosas de como votaram os senadores em uma sessão secreta no plenário.

A transcrição do áudio, no entanto, não comprovou a denúncia. Mesmo assim, o caso levou à renúncia de ACM.

É de Molina também o polêmico laudo que aponta que o então candidato à Presidência José Serra (PSDB) teria sido atingido na cabeça por um objeto "bem mais pesado que uma bolinha de papel", que seria semelhante a um rolo de fita adesiva, durante uma caminhada feita em sua campanha eleitoral, em 2010.

A análise, que havia sido encomendada pela "TV Globo", acabou virando material para as campanhas políticas naquele ano.

Perito parcial?
O perito ouvido pelo UOL sob condição de anonimato conta que conheceu Molina em uma situação de trabalho, quando os dois estavam em diferentes lados de um caso. "Veio ele aqui com alguns advogados, os clientes dele. Sentamos e apresentamos o laudo. Ele olhou o laudo e o único questionamento que fez foi: 'você não está sendo objetivo'. Ele queria uma resposta objetiva, de sim ou não", afirma o perito, dizendo que isso nem sempre acontece no universo forense.

"Eu disse para ele: olha, nós não somos robôs para sermos induzidos a responder da forma que vocês querem. Nosso compromisso é com a verdade e damos respostas com a melhor transparência possível", lembra.

"Se você me perguntasse: 'você contrataria ele?', eu responderia que não. Porque eu conheço meus colegas que trabalham nessa área. Pelo aspecto técnico, eu não contrataria", destaca.

Molina defende sua "imparcialidade" ao falar sobre ter periciado, doze anos atrás, um áudio polêmico protagonizado justamente por Joesley Batista –que, na ocasião, era quem havia sido alvo de uma gravação clandestina.

"Isso frequentemente acontece, de eu fazer uma perícia para um lado e anos depois fazer para o outro lado. Até acho que me sinto bem, mostra que tenho imparcialidade".

E diante da conjuntura atual, o trabalho para a defesa do presidente não estaria envolvido em um contexto político, passível de múltiplas interpretações?

"Se eu for trabalhar só em caso que não tenha contexto político, aí é complicado. Aí eu não trabalho mais", defende Molina. Ele afirma não ter contato direto com Temer e ressalta: "nem gostaria" de ter.

Fonte: UOL

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