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Crato (CE): Mulheres perpetuam dança do coco

Quem as vê não imagina o tamanho da vitalidade que carregam consigo. Junto à disposição de dar inveja a muitos jovens, as agricultoras cratenses assumiram, há quase quatro décadas, a responsabilidade de manter viva a tradição secular da dança do coco, um ritmo típico nordestino, que teve influência dos africanos e indígenas. Com idades entre 56 e 84 anos, elas compõem o Grupo de Mulheres do Coco da Batateira, como é conhecido no bairro Gisélia Pinheiro, um dos mais pobres desta cidade do sul do Ceará.

O grupo foi criado em 1979, na sala de aula do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). A hoje mestre do grupo, Edite Dias de Oliveira, lembra que há quase 40 anos ela e três amigas se reuniram para fazer uma apresentação na escola no Dia do Folclore e a dança escolhida por elas foi a do coco, também denominada zambê, coco de roda, coco de embolada, coco do sertão ou coco de umbigada.

"Das quatro, eu era a única que não sabia dançar, mas já achava muito bonito. Então a gente ensaiou para aquela apresentação e, durante os ensaios, pesquisamos a origem da dança. Daquele dia em diante, as apresentações foram ficando mais frequentes e dança passou a fazer parte de nossas vidas", recorda. Ao passar dos anos, a brincadeira ficou séria, ganhou novas adeptas e elas fundaram o grupo que hoje conta com 16 agricultoras, todas residentes na localidade da Batateira.

Dinâmica
As mulheres se dividem entre damas e cavaleiros, quando dançada em pares. Sete delas trajam-se de homens, e outras sete vestem roupas de mulheres, que se assemelham às usadas pelas quebradeiras de coco, com cores vivas e saias rodadas. Também pode ser dançada em fileiras ou rodas. Os instrumentos tradicionais são o triângulo e a zabumba, mas, atualmente, já foram incrementados outros, como o pandeiro e triângulo.

"As quebradeiras de coco, durante a procura pelo fruto na mata, faziam barulho semelhante e sempre trabalhavam cantando. Depois aquilo se transformou em dança", conta mestre Edite. As letras das músicas, embora sejam simples, sempre remetem a alguma temática regional ou ao cotidiano das agricultoras e o ritmo é cadenciado pelo batida das palmas e pés no "terreiro", como elas chamam os locais de apresentação.

Preconceito
O início não foi fácil. "A gente levava nome de doida, fogosa, macumbeira. Muitos não apoiavam, inclusive alguns maridos. Já tivemos até mulheres dentro do nosso grupo agredidas durante as apresentações, mas resistimos. Nosso objetivo foi e é manter viva essa tradição e ensinar para os mais jovens a riqueza da nossa cultura", explica a mestre mirim Raimunda Queiroz, que há 14 anos teve a ideia de fundar grupo de dança voltado para os jovens da comunidade.

"Muitas de nós já estamos velhas e algumas até já faleceram. Para perpetuar essa cultura, só mesmo ensinando aos pequenos. Em 2003, o grupo mirim foi criado e hoje já conta com 13 jovens. "Minha avó me trazia para o terreiro e eu ficava vendo as danças. Passei a admirar e também quis aprender. Sempre ouvi ela falar sobre a importância da dança do coco e hoje reconheço o valor que ela tem para sociedade", pontua Emanuel Henrique Rodrigues de Macedo, 14, há nove no grupo.

Reconhecimento
Embora o grupo já tenha sido tema de estudo de pesquisadores de universidades do Pernambuco, Maranhão, São Paulo, Rio de Janeiro e do próprio Ceará, as mulheres ainda carecem de apoio e incentivo para que as apresentações continuem. Edite Dias conta que "não há ajuda financeira da Prefeitura ou governo", o que tem dificultado inclusive a confecção e manutenção das roupas e sapatos usados nas apresentações.

O secretário de Cultura, Wilton Dedê, disse reconhecer a "relevância destes grupos para a constituição e formação identitária do nosso povo" e afirmou que "está formatando o Plano de Ações Culturais para que as necessidades sejam atendidas". E acrescenta: "o município está empenhado em construir projetos e ações contínuas no que diz respeito ao apoio para a cultura local". Anualmente, segundo Dedê, esses grupos recebem subsídios para renovarem a indumentária e fardamentos.

Wilton ressaltou que "tem se esforçado para incluir todos os grupos da cidade dentro das programações da Secretaria de Cultura com o pagamento de cachês a cada apresentação, uma vez tratarem-se de grupos de natureza privada (não são municipalizados, à exceção dos Irmãos Aniceto). Além disso, procura promover os grupos além das fronteiras da cidade, incluindo-os em Editais".

Enquanto o apoio não se concretiza, mestre Edite segue com o sonho de construir um "terreirão de ensaio" no quintal de sua casa. "Quero morrer dançando. É o que eu mais gosto de fazer, me revitaliza e tira todas minhas dores. Queria ensinar a dança para o maior número de pessoas, por isso meu sonho do terreirão", concluiu.

ANDRÉ COSTA
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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