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Como ajudar alguém que acabou de descobrir um câncer

Tem gente que nem pronuncia o nome, chama de "aquela doença". No entanto, todo ano, mais de 14 milhões de pessoas pelo mundo não conseguem evitá-la - essa é a estatística de homens e mulheres diagnosticados com o problema. "Quando fiquei sabendo, gelei", diz a bancária Ingrid Rangel, que recebeu a notícia aos 32 anos, em uma consulta médica. Já a dona de casa Katia Glória, 48, descobriu sobre o tumor ao olhar o resultado de um exame.

Tanto Ingrid quanto Katia tiveram a mesma reação: ligaram para os maridos e dividiram a notícia. O de Ingrid a encontrou na rua para abraçá-la. "Ele estava duro como uma rocha, mas a expressão no seu rosto era triste. Uma tristeza sem dó, pois eu pedi que não tivesse pena de mim", lembra. O de Katia brigou com ela pelo telefone. "Disse que eu não era médica e não poderia saber se era câncer mesmo." Depois cancelou todos os compromissos e a levou para jantar e conversar sobre o dali para frente. "Foi uma delicadeza", acredita.

O fato é que ninguém está preparado para esse diagnóstico. Isso vale tanto para quem descobre a doença como para quem está próximo: alguns se afastam, outros não tocam no assunto. "Olhar para um amigo com câncer quebra o nosso sentimento de invulnerabilidade, aquele de que nada de mau vai nos acontecer", explica Regina Célia Rocha, psicóloga do Instituto do Câncer (SP). "A partir daí, pensamos: se aconteceu com ele, pode acontecer comigo. Esse afastamento não é de caso pensado, é sem perceber, acontece por motivos inconscientes", completa.

Foi para ajudar essas pessoas - cônjuges, amigos, filhos, irmãos - que desenvolvemos o manual a seguir, elaborado a partir da experiência de quem já trilhou essa estrada.

Parte I - Acolha e fique por perto

Fale sobre cura e seja positivo

Quando Katia contou que tinha câncer na tireoide, escutou a mãe chorar e dizer "como vou criar meus netos?" Ela então lhe explicou que não estava morrendo. E compreendeu o mau jeito da mãe, mas afirma que referências sobre a morte é a última coisa que alguém nessa situação gostaria de ouvir. Após a notícia, toda a conversa deve se voltar, com confiança, para o tratamento. Outro tipo de reação comum - e também prejudicial - é ficar com raiva da realidade. "Poxa, por que isso foi acontecer com você?" Frases assim, em tom enfurecido, foram ditas para a fisioterapeuta do Instituto Nacional de Câncer (Inca) Isabel Cid, que descobriu um câncer de mama em 2012, tratou e já está de volta ao trabalho. "Eu pensava tão positivamente na cura... E era chato ver pessoas bravas com a minha doença enquanto eu buscava estar em paz", conta.

Nada de olhar com pena ou dó
Ao saber que tinha câncer no reto, a bancária Ingrid adiantou um pedido para o marido: "não me olhe com pena." E fez o mesmo com os pais. "Expliquei que o olhar de dó deles me enfraquecia, ao invés de me fortalecer." O tratamento acabou, mas deixou sequelas. Uma delas é que nunca poderá engravidar. "Quando as pessoas ficam sabendo, logo falam `mas você pode adotar¿, como se essa fosse a questão." Respostas rápidas assim para problemas profundos não ajudam. E não ter dó é bem diferente de fazer de conta que nada está acontecendo. "Quando estava careca, tinha gente que fingia não ver algo diferente em mim", diz Isabel, aos risos. Ela estranhava, mas não se aborrecia. "Nem todos sabem lidar", comenta. "Mas tenho pacientes que se queixam muito disso. Alguns fazem questão de deixar bem claro pelo que estão passando."

Seja uma boa companhia
Sessões de quimioterapia - comuns nesses tratamentos - duram cerca de quatro horas. "Se a gente não tiver alguém por perto, acaba pensando besteira", diz a empresária Maria Augusta Junqueira, 64, que se curou de um câncer no intestino. Uma conhecida se ofereceu para acompanhá-la nas sessões. E, ao final do tratamento, as duas já eram grandes amigas. "Ríamos tanto que eu via a químio como horas de conversa", conta. Quem não tem tempo para estar próximo pode dar carona para ir e voltar do hospital. A ajuda é bem-vinda porque, geralmente, pacientes nessa condição ficam muito fragilizados: enjoados e com baixa imunidade. Katia teve dificuldade em conseguir carona, apesar de, no início, todos terem oferecido ajuda. "Uma amiga me falou que não poderia me levar à quimioterapia para não perder o pilates", recorda-se.

Evite atitudes superprotetoras
Não force uma cara de felicidade para o doente. A psiquiatra do A.C. Camargo, Carolina Marçal da Cunha, alerta que muitos amigos e parentes se tornam superprotetores ao longo do tratamento, e que isso é ruim. Ela não recomenda, por exemplo, que as pessoas chorem sempre escondido e que se obriguem a parecer fortes na frente de quem está doente. "Tudo bem, de vez em quando, demonstrar tristeza", diz. "A família, os amigos e o paciente devem agir como uma equipe, comemorar juntos os avanços e também chorar juntos quando houver retrocessos", recomenda. A médica enfatiza que o doente deve participar das conversas a respeito da sua situação. "Ele é capaz de tomar decisões sobre o que se sente preparado ou não para fazer. Não pode ser protegido como se fosse uma criança e nem impedido de tentar ter uma vida normal."

Parte II - Recrie a vida normal

Mantenha os convites para sair
Não é porque alguém está tratando um câncer que precisa parar a vida. Com algumas restrições, a pessoa pode continuar trabalhando, estudando e se divertindo. Maria Augusta, mesmo em tratamento, assim que pôde, retomou as atividades em seu restaurante. "Foi muito bom ouvir dos funcionários e clientes que eu fiz falta. É importante se sentir útil", afirma. Seu marido e sócio, Davi Junqueira, 69, também teve câncer, na próstata e no intestino, e não ficou parado. "Após a radioterapia, eu ia para a academia, caminhar um pouco e ver pessoas. Se fosse para casa, me jogaria no sofá", conta ele. Uma sugestão da psiquiatra Carolina Marçal é convidar essa pessoa para um jantar ou uma festa com pouca gente. E sobre o que conversar? "Falem sobre como ele está seguindo a vida. Não é necessário lembrá-lo a todo instante sobre a doença", aconselha.

Ajude-o a preservar a autoestima
A empresária Paula Almeida, 30, esteve o tempo todo ao lado da mãe enquanto ela tratava, há quatro anos, um tumor na mama e outro no endométrio. "Antes de sair, eu desenhava, com um lápis, o contorno das sobrancelhas, já que os pelos caíram com a quimioterapia." Paula diz que a mãe não sofreu tanto por ficar careca. "Mas as pessoas reagiam mal ao vê-la assim", comenta. Para evitar isso, ela a ajudava na combinação dos lenços. E, recentemente, Paula participou de uma campanha do grupo Rapunzel Solidária, que produz perucas para pacientes com câncer. "Doei meus cabelos. Chorei de emoção ao cortá-los pensando em tudo o que minha mãe passou e sabendo que ela está ótima." Aliás, doar seu tempo ou mesmo seus cabelos para quem está passando pela doença pode ser uma maneira de ajudar, mesmo sem saber a quem.

Nem toda opinião é bem-vinda
Você pode acreditar que seu amigo teve câncer por algum motivo espiritual ou psicológico, para cumprir um carma ou porque engoliu muito sapo na vida. Mas nada disso tem fundamento científico, garante a psiquiatra Carolina. Esse tipo de pensamento, tão presente no senso comum, é extremamente cruel, pois responsabiliza o doente por algo que ele não tem culpa: o próprio sofrimento. "Muitos pacientes chegam para as consultas incomodados porque ouviram algo desse tipo. A maioria não acredita, mas mesmo assim fica para baixo com isso", conta. Portanto, não empurre o doente para rituais religiosos que não fazem parte da crença dele, e não o presenteie com livros de autoajuda se esse estilo de literatura não o agrada. Algum sentido na doença, cada paciente decide se vai ou não encontrar - e ninguém tem nada com isso.

Cogite doar sangue ou medula
Pessoas submetidas à quimioterapia podem precisar de transfusão, já que o tratamento diminui a quantidade de hemácias e plaquetas. E também por conta de uma cirurgia. Quem tem de 16 a 69 anos e no mínimo 50 quilos, e quiser doar, deve procurar um hemocentro ou hospital oncológico. Outra ideia é se cadastrar no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome). Pessoas de 18 a 54 anos, com boa saúde, precisam passar por uma coleta de apenas 10 ml de sangue para se cadastrar. A doação só será realizada caso apareça alguém que seja compatível. O Brasil possui mais de 3 milhões de doadores cadastrados. Aumentar esse número eleva a chance de cura de quem tem leucemia, linfoma e outros tipos de câncer. Além disso, essa é uma forma de prestar solidariedade a quem você nem conhece.

Fonte: Vida Simples

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