P3 Midia

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104 novas espécies vegetais são detectadas no CE

A Serra das Almas é uma das áreas florestais protegidas
por Unidade de Conservação no Ceará 
O terceiro inventário florestal publicado pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB) revela que foram encontradas 104 novas ocorrências de espécies vegetais no Ceará. Cerca de 57% do Estado equivale a 8,5 milhões de hectares e é coberto por tipologias consideradas florestais. A Caatinga, bioma típico do Semiárido brasileiro, que significa mata branca, predomina em 88% dessas áreas.

No Ceará há também áreas de Cerrado e florestas (do tipo ombrófila, estacional e pioneira). Para mapear a qualidade e condição dessas florestas, o Inventário Florestal Nacional (IFN) no Ceará coletou dados em 457 pontos distribuídos sistematicamente sobre todo o território, por um período de quase um ano.

O IFN foi realizado no Ceará pelo SFB em parceria com a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace). O Estado é o terceiro a ter os resultados divulgados. Além do Ceará, o órgão já disponibilizou catálogo digital do inventário de Santa Catarina e do Distrito Federal, no sítio eletrônico do órgão.

Trabalho minucioso
Durante quase um ano foi realizado um trabalho minucioso. Em cada área foram medidas as árvores, colhidas amostras do solo, coletadas mais de duas mil amostras botânicas (folhas, flores e frutos) para identificação das espécies, além de outros dados. Também foram realizadas entrevistas com 1.034 moradores rurais que vivem no entorno das áreas pesquisadas para conhecer a percepção da comunidade sobre os recursos florestais e seu uso. Com mais de 148 mil quilômetros quadrados e 184 municípios, o Ceará possui quase 8,5 milhões de habitantes e está localizado na sub-região do Sertão Nordestino, uma área caracterizada pelo clima Semiárido. Possui 12 unidades de conservação federais, 27 estaduais e 13 municipais.

O estudo identificou 776 espécies vegetais, entre elas, 346 espécies de árvores. O marmeleiro foi a árvore mais encontrada na região. Já a carnaúba foi a mais abundante em áreas fora de florestas. Cerca de metade das árvores analisadas foram consideradas sadias. A outra metade, no entanto, apresentava algum tipo de comprometimento: 14% das árvores encontravam-se mortas e 35% apresentaram algum nível de deterioração.

Novas ocorrências
Os pesquisadores encontraram 104 novas espécies vegetais no Ceará. Destas ocorrências, 54 eram espécies arbóreas, sendo quatro originárias do Cerrado, oito da Mata Atlântica e três amazônicas. O cedro e a garapa, que estão na lista oficial do Ministério do Meio Ambiente (MMA) de espécies ameaçadas de extinção, foram encontradas em áreas inventariadas.

Nos questionários aplicados junto à população, três em cada quatro pessoas entrevistadas afirmaram utilizar a floresta de alguma maneira. Desses, 84% fazem uso doméstico da madeira e 16% uso comercial. Postes, estacas e lenha são os principais usos da madeira, segundo os entrevistados. Já as cascas, os frutos e o mel são os produtos não madeireiros mais utilizados. Um grupo de 76% dos entrevistados afirmou fazer uso desses recursos, mas a maior parte deles faz uso não comercial.

Em 81% dos locais amostrados foram observadas evidências de antropismo. A principal delas é a presença ou vestígios de animais domésticos de grande porte, como gado, em 67% das áreas analisadas pelo IFN. Sinais de incêndios foram o segundo fator mais registrado, em 42% dos locais.

Importância
O diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro, Raimundo Deusdará Filho, destacou a importância da coleta de dados feita diretamente em campo, em larga escala e de forma sistemática. "As informações contidas no inventário representam uma oportunidade rara de conhecimento a respeito dos estoques e da biodiversidade dos recursos florestais", frisou. "É um trabalho aprofundado importante para as comunidades rurais, além de ser um valioso instrumento de suporte e orientação para os governos e a sociedade no desenvolvimento e implementação de políticas de manejo e conservação das florestas", acrescentou.

Para o titular da Secretaria de Meio Ambiente do Ceará (Sema), Artur bruno, o inventário subsidiará a criação legal de novas unidades de conservação no Ceará. "Essa é uma das ferramentas para integrar o crescimento econômico com o fomento à moderna indústria, de modo a libertar o povo cearense do determinismo da seca e da endêmica pobreza nordestina", frisou.

"O Ceará tem contraditórias paisagens em que se misturam o verde luxuriante das serras, o cristalino verde-esmeralda de seus mares e a dramática beleza cênica da caatinga do sertão nordestino", completou. Artur Bruno explicitou que, a partir dos dados apresentados no inventário florestal, ações inovadoras serão definidas. "O Ceará foi um dos primeiros Estados no Brasil e o segundo do Nordeste a iniciar esse trabalho", destacou. "É uma importante ferramenta norteadora de novas políticas públicas de desenvolvimento, uso e conservação da flora".

Desertificação
O engenheiro agrônomo, Paulo Maciel, mestre em Desenvolvimento Regional Sustentável e diretor presidente do Instituto Rio Jaguaribe, observa que o Ceará tem 35% de área em processo de desertificação. "Repetidamente o bioma a Caatinga vem sendo degradado com a abertura de áreas para pastejo. A prática agrícola tradicional é pouco degradadora", frisou.

Maciel observa que a modernização que chegou ao campo ao invés de melhorar, piorou o quadro de degradação ambiental. "O homem desmata com motosserra, usa máquinas, veneno, fogo e impede o crescimento de rebrotas. É preciso mudar o sistema de criação de gado, da exploração pecuária, que deveria adotar o modelo intensivo e outras técnicas adequadas", disse.

Valorizar o cultivo de mudas nativas e implantar políticas públicas de incentivo à mudança cultural por parte dos produtores rurais é o que defende o ambientalista. "É preciso incentivar e apoiar o manejo adequado, correto da Caatinga", disse Paulo.

A percepção das comunidades rurais com as espécies nativas ocorrem com mais evidência na Chapada do Cariri e na Serra da Ibiapaba, na sua avaliação. "A população tradicional tem essa maior identificação, mas quem vem de fora desconhece", frisou. O ambientalista mostra que espécies nativas como aroeira, cumaru, imburana, angelim, pau branco, pau d'arco, jenipapo e cedro praticamente não existem mais. "De Baturité a Fortaleza era uma extensa mancha de Mata Atlântica e no Cariri e na Ibiapaba havia muitos exemplares do cerrado devido ao solo e microclima, nas áreas úmidas", explicou.

HONÓRIO BARBOSA
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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