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Juazeiro do Norte (CE): Restos de construção civil são transformados em obras de arte

"Do lixo ao luxo". É com esta frase que o artesão juazeirense Adriano Bezerra Cruz, de 54 anos, define seu trabalho iniciado há cerca de dois anos. O olhar e a sensibilidade do artista conseguiram imprimir um valor inestimável aos restos de construção civil que, outrora dispensados no lixo, passaram a ser recolhidos e transformados em verdadeiras obras de arte, impressionando pela riqueza de detalhes.

O artista plástico conta que a ideia de criar os quadros em mosaico começou diante de um desconforto pela grande quantidade de entulho jogado nas calçadas da cidade, com destinação incerta e, muitas vezes, inadequada. "Andava pelas ruas e via um monte de cerâmica jogada nas calçadas e comecei a observar que aquilo poderia virar algum tipo de arte. Só não sabia ainda o que seria", explica. O que para muitos era visto apenas como entulho, para o autodidata seria a matéria-prima para suas futuras obras.

Início
Com cacos de cerâmicas de diversas tonalidades e tamanhos recolhidos, Adriano montou seu primeiro quadro, um mosaico retratando o mar e seu habitantes, obra intitulada carinhosamente por ele de "peixinhos".

O resultado surpreendeu. "Nunca tinha feito nenhum trabalho do gênero. Quando concluí o quadro, fiquei positivamente surpreso. Meus familiares e amigos gostaram muito e me incentivaram a ir além".

O conselho foi absorvido. Em seguida, surgiu a ideia de retratar, concomitantemente, o regionalismo caririense, além de reproduzir quadros já consagrados pelos admiradores, com destaque para os renascentistas.

Acervo
O Soldadinho do Araripe, pássaro que carrega em sua pequena estatura de apenas 15 centímetro de comprimento a simbologia de uma região com belezas naturais singulares, foi reproduzido em um de seu quadros, assim como a "Moça do brinco de pérola", obra-prima do pintor holandês Johannes Vermeer. "Todos possuem uma particularidade. Gosto de cada um deles, mas esse, para mim, é um dos mais lindos, ao lado do retrato da minha filha", avalia.

Em dois anos, Adriano já produziu 14 quadros, com temáticas que variam desde o meio ambiente à religião, passando pela representatividade do Cariri. Cada obra, segundo conta, leva em média 30 dias para ser finalizado. A 15º, no entanto, está em fase de conclusão e deverá ultrapassar um pouco este prazo devido ao "grau de dificuldade". Eternizada pelas mãos de Leonardo da Vinci, um dos mais eminentes homens do Renascimento italiano, Adriano está reproduzindo a Mona Lisa "um pouco diferente", conforme explica.

"É uma obra mundialmente conhecida e, por isso, carrega um peso maior. Meu quadro será puxado mais para o estilo barroco, como tem sido uma marca em toda a minha produção. O fundo do quadro também será um pouco diferente", destaca. O trabalho minucioso, porém, divide o posto de "mais difícil" ao lado da obra do Maestro Arlindo Cruz, tio de Adriano e um dos responsáveis pela criação da Escola Municipal de Música de Santana do Cariri.

"Além de carregar um peso emocional, a obra possuí diversos detalhes, sobretudo no saxofone. São peças pequenas e de variadas cores que demandam muito tempo para encontrá-las, já que minhas obras são feitas exclusivamente com cerâmica, sem utilizar nenhuma tinta. Diante tudo isso, esse foi um dos mais difíceis", disse. Para atingir os resultados realistas sem se valer da utilização de tintas, Adriano desenvolveu uma espécie de paleta de cores, onde separa os cacos de cerâmicas de acordo com suas cores e tonalidades. "Quando ia recolhendo os entulhos nas ruas, me deparei com a dificuldade de armazená-los devido à grande variedades de cores, então criei esse tabuleiro, com quase 150 tonalidades", explicou o artista.

Sustentabilidade
Em dois anos de trabalho, Adriano lembra que já recolheu incontáveis quilos de entulho pelas ruas de Juazeiro do Norte. A transformação do lixo em arte, para ele, é motivo de orgulho e serve de exemplo, embora seja "uma porção ainda pequena diante tudo que é descartado diariamente", salienta.

"Sei que é algo pequeno, mas se todos fizessem sua parte teríamos um mundo mais sustentável. Não estou aqui dizendo que todos devem sair pelas ruas pegando os entulhos, levando para casa e fazer arte. Claro que é um dom, mas para além disso as pessoas podem sim contribuir com o meio ambiente de infinitas formas", ponderou.

Após ter exposto suas obras recentemente nas galerias do Centro Cultural do Banco do Nordeste, em Juazeiro do Norte, Adriano Bezerra sonha com voos mais altos no futuro.

"Esse trabalho é muito valorizado na Europa e espero um dia poder expor em alguma sala de arte de lá", anseia. Com o objetivo de alcançar tal feito, o artista plástico começará, ainda este mês de setembro, uma produção "singular" em que retratará a Rainha Elizabeth II e seu esposo, o príncipe Philip. "Deposito grande expectativa nesta obra. Serão dois quadro que irão interagir entre eles. É um novo desafio e sonho. Espero que possa chegar até o conhecimento da realeza britânica", disse.

Adriano objetiva também ensinar sua arte para jovens infratores da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor do Ceará (Febemce) de Juazeiro do Norte, "como forma de tentar mudar a realidade dessas crianças que muitas vezes se inserem na criminalidade por falta de oportunidades, falta de educação, carinho e de atenção", disse ao finalizar afirmando que "cada um de nós possui o poder de, com gestos simples, mudar o planeta, mudar as pessoas. Só depende da vontade própria", ressaltou.

Artista descobriu vocação ainda na adolescência
Adriano Bezerra Cruz tem 55 anos e nasceu na cidade de Juazeiro do Norte. Pai de dois filhos, o artista plástico, que também é cabeleireiro e cineasta, começou, ainda na adolescência, a desenvolver trabalhos em gesso, pedra e ferro. Há dois anos, enveredou para o mundo dos quadros em mosaico. Atualmente, são 14 obras concluídas e uma exposição no Centro Cultural Banco do Nordeste. Ao todo, o artista possuí mais de 40 obras, entre quadros, esculturas e miniaturas e já produziu dois curta-metragens.

ANDRÉ COSTA
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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