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Juazeiro do Norte (CE): Cores vivas e muitos santos destacam as casas do Horto

Na residência de Rosalva Conceição Lima, a Dona
Rosinha, são incontáveis os santos e imagens que contrastam
 com as paredes de rosa vivo (Foto: André Costa) 
O íngreme caminho até a chegada à Colina do Horto, neste município, distante 530Km de Fortaleza, reserva um cenário peculiar. A ladeira do Horto, como a rua é conhecida, é ladeada por casas de cores vibrantes e paredes internas revestidas de imagens de santos, fitas, terços e retratos - alguns do século passado - e, claro, esculturas dos mais diversos tamanhos do Padre Cícero, patriarca juazeirense.

O sacerdote é, inclusive, "o grande responsável por encontrarmos tantas casas que mais parecem santuários, sobretudo nas proximidades do Horto ou das igrejas e capelas da cidade, locais amplamente visitados pelos romeiros. As pessoas se inspiram em padre Cícero e transformam suas residências como forma de potencializar a religiosidade e fé", conforme o mestre em História João Paulo Fernandes.

Símbolo
Entre as dezenas de casas da Rua do Horto, algumas possuem maior destaque. Ao lado de uma das estações da Via Sacra, uma residência cor-de-rosa chama atenção de quem passa. As janelas frontais quase sempre abertas e revelam uma sala singular. Na Casa de Rosalva Conceição Lima, conhecida pelo sugestivo apelido de Dona Rosinha, são incontáveis santos e imagens. "Perdi as contas. Minha idade eu até sei, mas o número de santos, imagens, terços e retratos, já não sei. Certamente mais de cem", brinca a lúcida e simpática missionária de 95 anos.

Dona Rosinha do Horto, chegou à Juazeiro aos seis anos de idade. Segundo lembra com riqueza de detalhes, seu pai, João Nicolau da Silva, trouxe a esposa e os três filhos da cidade de Palmeiras dos Índios, em Alagoas, no ano de 1927. "Papai era muito religioso e pediu ao padre Cícero para vir morar em Juazeiro e ele nos atendeu. Viemos a pé. Foi uma longa viagem", ilustra Rosinha, ao acrescentar que passavam os dias rezando e cantando, seguindo as marcas que outros romeiros tinham deixado, indicando o caminho a seguir.

Fortalecimento da fé
Com a chegada à Capital da Fé, como Juazeiro é conhecida, a religião cresceu na vida daquela família alagoana. A senhora de estatura pequenina, com aparência saudável e de uma vitalidade impressionante, incomum para a idade que ela tem, recorda que a primeira imagem foi dada por um padre, durante uma romaria. Passados 86 anos, o presente permanece intacto no centro da sala, ao lado de outras tantas imagens. "Este foi o primeiro", ergue o dedo apontando o Sagrado Coração de Jesus. "Hoje tem uma centena, para onde olhar, vai encontrar um santo. Me sinto bem, como se minha fé fosse renovada a cada dia", acrescenta.

Há 89 anos morando em Juazeiro, dos quais os últimos 66 têm sido na mesma casa, na ladeira do Horto, Rosinha tornou-se um ícone da cultura popular. Sua casa peculiar atrai visitantes de vários Estados e de outros países, conforme recorda. "Já recebi visita de gente famosa, o Pedro Bial, por exemplo, bispos, gente de todo canto do País e até do estrangeiro", conta orgulhosa. Para ela, a casa repleta de santos e imagens foi um dos legados deixado pelo Padim Ciço.

"Ele (Padre Cícero) morreu, mas permanece vivo na memória, assim como Deus. É uma forma que eu e tantas famílias encontraram para manter a fé sempre viva", disse. O pároco da Paróquia Nossa Senhora das Dores - Basílica Santuário, padre Cícero José da Silva, ressalta, porém, que "as imagens não são adoradas, como muitos pensam e dizem, elas são recordações, portanto, transmitem paz e fé".

Tradições
Nesses "santuários residenciais", entre as muitas imagens, nunca faltam a do Padre Cícero e a do Sagrado Coração de Jesus, a quem todos os dias Maria das Dores Bernardino Santos reza um mistério. Dona Dorinha, como a zeladora de 62 anos é conhecida por todos, é uma outra personagem bastante popular no bairro Horto.

Ela conta que a imagem do Sagrado Coração de Jesus possui lugar de destaque nas casas dos católicos e é sempre acompanhada de uma luz. Esta tradição vem da época do Padre Cícero, quando um homem que estava passando necessidade perguntou ao religioso o que poderia fazer para sobreviver e o padre Cícero lhe aconselhou que fabricasse candeeiros. Daí iniciou a festa das Candeias, cuja marca são as inúmeras velas e candeeiros acesos nas procissões.

Daquela época em diante, em todas as casas de Juazeiro com a imagem do Sagrado Coração de Jesus, está acesso um candeeiro alimentado com óleo, que não se deixa apagar, semelhante acontece com a luz do Santíssimo nos templos católicos. Essa é uma das várias tradições que as famílias católicas seguem. "Desde nova eu aprendi isso e hoje repasso para meus quatro filhos. São tradições, que foram ensinadas por Padre Cícero e que nós, devotos, seguimos e passamos de geração em geração", diz.

O pároco da Basílica Santuário lembra que todas essas tradições, que ainda hoje são mantidas vivas devem-se, muito, ao fato de "Juazeiro do Norte ter sido estruturada pelo trabalho pastoral missionário do padre Cícero Romão Batista". Conforme conta, o Padim "sempre ensinou ao povo católico a colocar Deus no centro de tudo, daí surgiram diversas tradições bastante peculiares em nossa região".

Cores
As cores vibrantes e as paredes revestidas de fé, por meio das imagens religiosas, também são, segundo o pároco, "uma tradição secular, nascida do povo a partir dos ensinamentos do padre Cícero Romão". O padre Cícero José lembra uma frase do patriarca juazeirense para justificar as cores alegres nas casas de muitos católicos: "Padre Cícero dizia que 'Quem tem Deus no coroação tem um rosto alegre', portanto, todas as expressões vistas em Juazeiro, não só no bairro do Horto, traduzem essa frase".

"Somos felizes. Minha casa transmite felicidade. Romeiro é um povo alegre", confirma Dona Rosinha, ao ser questionada sobre as cores vibrantes e as flores espalhadas pela casa, trocadas imediatamente quando murcham. A cor, no entanto, não tem a ver com a religião, mas com o amor. "Meu falecido marido gostava, então resolvi manter, mesmo depois de sua morte, como forma de deixá-lo presente", lembra com saudosismo.

Viúva há 19 anos, Rosinha teve cinco filhos, os quais também já faleceram. Entretanto, ela rejeita o título de solitária: "Nunca estou sozinha. Minha casa é sempre repleta de visitantes e vizinhos atenciosos. E mesmo quando eles não estão, eu vivo na presença de Deus, do padre Cícero e das minhas várias imagens que transmitem força e paz".

Opinião do Especialista

Tradições cultivadas ao longo dos anos

João Paulo Fernandes

Mestre em História Social / Esp. Em Sociologia

O cenário que se observa no entorno do que hoje chamamos de Colina do Horto (antes Serra do Catolé), remonta a um contexto anterior, marcado por controvérsias envolvendo, sobretudo, a figura do Padre Cícero Romão Batista. Nesse emaranhado, não é segredo afirmar que a cidade de Juazeiro do Norte está intimamente ligada a um forte misticismo religioso.

A partir do que convencionalmente passou a ser conhecido como o famoso "milagre da hóstia" e os conflitos que envolveram a Igreja, houve um impulso e fortalecimento da fé de milhares de romeiros que se dirigiam de diversos Estados do Nordeste ao pequeno lugarejo, transformando aquele povoado em um palco de diversas manifestações religiosas, motivadas por rituais, narrativas e diversas crenças em torno da figura controvérsia e emblemática do "santo padre".

Nas representações de fé dos romeiros que fizeram do entorno da colina local de morada, mitos, epopeias e analogias bíblicas se confundiam com a própria história do local. Nessa nova configuração espacial, o Padre Cícero era o enviado de Deus à "Terra Santa", e a voz que "clamava no deserto" para endireitar os caminhos dos pecadores, assim, Juazeiro seria a "Nova Jerusalém" e para se chegar ao local santo, era necessário enfrentar a via-crúcis, o suplício do Calvário até chegar ao Monte Sagrado.

Nesse sentido, tais experiências moldaram as relações sociais dos que ali passavam e dos que se fixaram e que, com o passar dos anos, foram adquirindo novos significados, que se ampliam na medida em que experiências culturais vão sendo transmitidas de geração para geração.

Podemos citar a Renovação, que não é exclusiva à região e tampouco uma prática restrita ao catolicismo popular, mas que, no Cariri, foram incentivadas pelo Padre Cícero, com a Consagração das Famílias ao Sagrado Coração de Jesus, que é uma das tantas demonstrações da fé e religiosidade.

Dessa forma, na sala de entrada das residências, conhecida popularmente como a "sala do santo", um altar é montado com as imagens dos Corações de Jesus e de Maria e, uma vez por ano, cada casal convida amigos, parentes e familiares, que participam das leituras e dos cânticos, para renovarem a sua fé.

Tal prática, mesmo ameaçada, se perpetua e mantêm-se marcante em algumas regiões caririenses, promovendo a sociabilidade e fortalecendo as tradições regionais. Os santos, as comidas, as cores fortes, os laços afetivos e religiosos, são marcadas e permeadas por tradições e situações nas quais a fé, a comida, os espaços de sociabilidade e o lazer entrecruzam-se nos lares, são características que estão presentes no dia a dia dessas pessoas, essa panaceia de ritos torna-se sacramental para a cultura do Cariri.

ANDRÉ COSTA
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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