Crato (CE): Reserva Natural Oásis do Araripe protege pássaro em extinção no CE

A mais nova Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Ceará, a Oásis Araripe, já nasceu com uma missão especial: proteger uma das espécies ameaçadas de extinção, o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni). A RPPN, de 50 hectares, fica localizada na região do Cariri, no município do Crato, distante 510Km de Fortaleza. Sua criação também vai beneficiar os mais de 127 mil habitantes da região, contribuindo para o fornecimento de recursos hídricos, conservação da biodiversidade, nascentes de água e preservação da fauna e flora cearenses.

A área protegida pela RPPN é um remanescente florestal úmido de Mata Atlântica, localizado em pleno semiárido, região mais seca do Brasil. Esta área é afetada com a expansão da agricultura, a especulação imobiliária e a ocorrência de queimadas nas lavouras da região, que por vezes fogem do controle e acabam por degradar a área de mata nativa.

Uma estimativa conservadora sugere que reste apenas 25% da mata utilizada como habitat pela ave, apontam biólogos da Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), instituição que criou a RPPN Oásis Araripe, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. A criação da Reserva faz parte do Programa Extinção Zero no Ceará. Segundo a entidade, a criação de novas RPPNs no Cariri influencia positivamente na conservação do soldadinho-do-araripe, pois muitas fontes de água nascem na Chapada, concentradas na região do Cariri.

A água é a chave para a conservação da espécie, que prefere buscar o leito dos rios para reprodução. A propriedade onde se insere a RPPN abriga três fontes cadastradas no sistema governamental de gestão de águas. O projeto utilizará uma delas para a construção de um canal de água e trabalhará na conversão da floresta em mata ciliar, que é a vegetação que fica nas margens de um curso d'água e o protege. "Assim vamos criar um ambiente reprodutivo para a espécie, sem depender da restauração tradicional, mais demorada", explica a Aquasis.

A diretora executiva da Fundação Grupo Boticário (parceira do projeto), Malu Nunes, destaca que a criação de RPPNs beneficia o ecossistema e contribui para a qualidade de vida da comunidade. Essa área natural, garante ela, continuará fornecendo água com melhor qualidade, ar puro e temperaturas reguladas e não será devastada - além de proteger uma espécie criticamente ameaçada.

Segundo dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Ceará possui atualmente 33 RPPNs, com pouco mais de 15,4 mil hectares de áreas protegidas por Lei. A Serra das Almas, com 5.8 mil hectares, é a maior já criada, e a Passaredo, com 3,61 hectares é a menor.

Formalização
A coordenadora da Biodiversidade da Secretaria de Meio Ambiente do Estado (Sema), Dóris Silva, ressalta a importância das reservas para o Estado. As RPPNs, aponta, são áreas privadas protegidas em caráter permanente e plano de manejo.

Essas unidades de conservação podem ser utilizadas como espaço para o desenvolvimento de atividades educacionais, ecoturismo e pesquisas científicas. Segundo ela, a meta da Sema é incentivar a criação de mais áreas de proteção permanentes. Para isso, a Sema deve lançar, em setembro desse ano, novo edital visando a instituição de mais RPPNs. "No início do ano, já tivemos um edital e, como não houve vencedores, vamos repetir. A Sema irá contratar, após licitação, empresa para fazer os estudos técnicos das unidades ganhadoras. Teremos outras etapas até o reconhecimento formal das novas reservas. Isso tem uma significação especial porque essas áreas resguardam espécies restritas ou ameaças de extinção", afirma.

Para tal, diz, deverá ser firmado termo de compromisso assinado perante o órgão ambiental, que verificará a existência de interesse público e será averbado à margem da inscrição no Registro Público de Imóveis.

Dentre as razões que levam à transformação de área particular em reserva, de acordo Dóris, em primeiro lugar estão os motivos preservacionistas, depois vem o interesse no ecoturismo, compensação ambiental, evitar assentamentos e grilagem da terra, assegurar a propriedade, lazer, educação ambiental e pesquisa científica. Ela destacou que o direito de propriedade fica preservado e que o grande desafio está em monitorar as áreas.

Iniciativas
Das 33 RPPNs do Estado, a intitulada Ambientalista Francy Nunes, fundada em 2000, situada na localidade de Riacho das Pedras, na zona rural de General Sampaio, chega agora a uma nova fase, adianta a gestora da reserva, Kelma Nunes. "Vamos apresentar, na Câmara de Vereadores local, em data a ser definida, projeto visando cumprir o terceiro viés da sustentabilidade para uma RPPN: o econômico, e vamos tentar firmar apoio com parceiros e levar avante o sonho de meu pai. Isso representará um novo alento para a reserva", analisa, explicando que a unidade já alcançou dois outros critérios: o social e ambiental.

A reserva tem área de 200 hectares e teve seu Plano de Manejo aprovado pelo MMA, em 2011. Além disso, foi resultado da parceira com a Associação Asa Branca, Ibama e universidades Federal do Ceará (UFCE) e Estadual (Uece) e financiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA). Kelma destaca que o grande incentivador para criar o espaço foi o genitor da família, Francisco Nunes.

Ela explica que o Plano das RPPNs é um estudo da biodiversidade, elaborado por pesquisadores com a participação das comunidades vizinhas à unidade. "Inclui levantamento da fauna e flora, dos cursos d'água e de atrativos para a visitação. Ele serva como um instrumentos para definir o planejamento da reserva, sua forma de organização e de gestão", pontua.

LÊDA GONÇALVES
REPÓRTER

Fonte: Diário do Nordeste

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