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Barbalha (CE): Restou a frustração do sonho da Usina Cariri I

Quando a então usina Manoel Costa Filho, hoje Usina Cariri I, se instalou neste município, a 555Km de Fortaleza, os agricultores locais vibraram com a perspectiva de alavancarem suas receitas, afinal, a previsão de investimentos para os anos posteriores à instalação era de R$ 176 mi, com meta de gerar 1.200 empregos diretos, e outros 2.500 postos indiretos. Entretanto, a realidade atual é outra. Após três anos, o equipamento segue sem previsão de funcionamento.

Francisco Oliveira da Silva, 51, é um dos vários agricultores que viu o sonho diminuir ano após ano. Ele conta que "muitos colegas" já migraram para o plantio da banana, cultura fortalecida na região, após o declínio da agroindústria canavieira. "A gente esperava que essa indústria fosse melhorar nossa renda e trazer mais emprego. Mas o tempo está passando e nada. Só muita expectativa", lamentou o agricultor, pai de quatro filhos.

O secretário de política agrícola e agrária do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da Barbalha, Francisco Sérgio Pereira da Silva, critica "a inutilização da usina" e diz que "vários agricultores estão migrando para outros centros em busca de trabalho". Segundo Sérgio, os Estados da Bahia, São Paulo e Paraná são os destinos mais procurados.

"Viver da cana-de-açúcar aqui está difícil. Muitos se animaram quando a usina foi comprada, mas a alegria virou frustração. Diversos agricultores estão deixando suas casas para buscarem trabalho em outras regiões, onde a cana ainda é uma realidade", acrescentou. A expectativa dos agricultores pelo equipamento pode ser explicada pelo histórico da então usina Manoel Costa Filho. Na década de 80, no auge de sua produção, o equipamento chegou a representar 4,5% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará.

"Essa região era farta. Eu sustentava minha esposa e meus seis filhos com a cana-de-açúcar. Hoje, se não for plantando feijão e milho, tem que ser banana, porque a cana não tem mais nada", lamentou o agricultor Firmino Gonçalves, 59. Já o sindicalista Sérgio Pereira destaca que, atualmente, a área de plantio da cana é quase zero, "se comparada a anos anteriores".

Fábrica-Escola
O secretário do Sindicato diz depositar "as esperanças da revitalização da cana" na Fábrica-Escola de Barbalha, que estava desativada há quase uma década e que foi reaberta na semana passada pelo governo do Estado, por meio do Instituto Agropolos. "Sabemos que nada se compara à capacidade de produção e geração de emprego de uma fábrica com o porte que seria a Usina Cariri I, mas já é um avanço, é um sonho ver a cidade produzindo cana-de-açúcar como antigamente", pontuou, ainda, Sérgio Pereira.

A unidade será gerenciada sob a coordenação do Instituto Agropolos Cariri, com a supervisão da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA). Segundo o administrador municipal José Leite Gonçalves Cruz, "a fábrica vai resgatar a tradição de trazer o agricultor e o produtor rural para cá. Aqui eles terão espaço e condições de produzir e vender seus produtos".

Na reconstrução da Fábrica-Escola, o governo do Estado investiu aproximadamente R$ 60 mil na recuperação de equipamentos e nas instalações. No local, serão produzidos os diversos derivados da cana-de-açúcar, entre outros produtos a cachaça, o açúcar, a rapadura, sequilho, bolos e artesanato.

"O objetivo é dar condições de trabalho para os agricultores e que eles possam ter aqui um lugar permanente para expor e vender seus produtos", disse o diretor-presidente do Agropolos, Max Quintino.

Crise
Com os equipamentos da antiga usina inutilizados por mais de uma década, a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) adquiriu-os, por leilão, em 2013, no valor de R$ 15,4 mi. Após a aquisição, o órgão tentou negociar a usina para que empresários assumissem a produção da cana-de-açúcar e, em contrapartida, o Estado teria participação nos lucros para compensar os investimentos.

Entretanto, três anos se passaram e nenhuma empresa concretizou negócio, apesar de inúmeras reuniões realizadas com investidores interessados de vários Estados, sobretudo da região Sudeste. A Adece informou que continua prospectando para a retomada do funcionamento da usina e ressaltou, ainda, que "em virtude da crise econômica nacional, bem como os fatores climáticos, os empresários têm se comportado de forma conservadora, adiando a realização de investimentos em novos empreendimentos".

Ainda conforme o órgão, "com a concretização da Transposição do Rio São Francisco e do Cinturão das Águas, o cenário ficará mais favorável para a captação e realização dos investimentos necessários". Enquanto isso, a Agência destaca a importância de estudos mais aprofundados a respeito dos novos cultivos de cana-de-açúcar para a região, além de uma avaliação das condições de funcionamento, inicialmente estimada, só na recuperação dos equipamentos, em mais de R$ 35 mi.

Sem previsão
O diretor de agronegócio da Adece, Sílvio Carlos Ribeiro, afirma que já foi feito o estudo de viabilidade técnica da usina, e existem empresas interessadas na parceria. Mas, inicialmente, ele afirma que é preciso o retorno de produção da cana na região. Atualmente boa parte das terras, até mesmo no entorno da usina, em Barbalha, está ocupada com a cultura da banana, que se fortaleceu nos últimos anos.

Para o diretor da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) no Cariri, Marcos Tavares, cabe ao governo "negociar o equipamento, que foi adquirido por um valor considerável e hoje segue inutilizado". Tavares lembra que, "além de gerar renda e emprego para a região", a Usina Cariri atuaria na revitalização de uma cultura. "Há 40 anos, aquela região possuia mais de 40 engenhos. A cultura da cana-de-açúcar era forte. Caso o governo consiga negociar a usina para que ela volte a produzir, será uma revitalização da cultura, desta vez, com mais tecnologia e maior produtividade", pontuou.

Ascensão e queda do negócio
A Usina Manoel Costa Filho foi desativada em 2004, após três décadas de intensa produção e geração de renda. No fim dos anos 80, início da década de 1990, era responsável por quase quatro mil empregos diretos e indiretos. No auge da produção, comercializava cinco mil sacos de açúcar e tinha capacidade de produção de 40 mil litros álcool por dia.

Os valores negociados representavam, no fim da década de 1980, 4,5% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará. Junto com o fechamento da indústria, houve também uma queda praticamente total do cultivo da cana-de-açúcar na região, com fechamento de quase todos os engenhos.

ANDRÉ COSTA
COLABORADOR

Fonte: Diário do Nordeste

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